Poker mentiroso, antiético e imoral

Num jogo de poker, mentir é permitido.
(Acho que é por isso que eu gosto tanto deste jogo.)
Porque eu não sei, não gosto, e não me pego a mentir para as pessoas.
Mas no jogo eu posso… eu devo e até preciso!

Na vida, sobre a mentira, só a suspeita da falsidade já leva o nome de mentira
quando uma pessoa espera que o ouvinte de tal falsidade acredite em suas afirmações…

ela sempre diz mentiras quando tem a intenção de enganar a outra
e o faz deliberadamente, sem notificação prévia de seu propósito, e sem ter sido explicitamente solicitada a fazê-lo pelo alvo…

Ou seja, ao contrário de situações em que é esperado que a pessoa transmita falsas informações, como em um jogo de poker, na mentira a pessoa pode escolher entre mentir ou falar a verdade, sabendo a diferença entre as duas opções.  Mas isto é sacanagem na vida. No jogo, isto é necessário! Mas na vida, é sacanagem!

Mentir é contra os padrões morais de muitas pessoas e é tido como um “pecado” em muitas religiões. As tradições éticas e diversos filósofos estão divididos quanto a se uma mentira é alguma situação permissível – Platão disse sim, enquanto Aristóteles, Santo Agostinho e Kant disseram não.

Mentir de uma maneira que piore um conflito em vez de diminuí-lo, ou que se vise tirar proveito deste conflito, é normalmente considerado como algo antiético.

Existem pessoas que afirmam que é com frequência “mais fácil fazer as pessoas acreditarem numa Grande Mentira dita muitas vezes, do que numa pequena verdade dita apenas uma vez”. Esta frase foi proferida pelo Ministro da Propaganda Alemã Joseph Goebbels no Terceiro Reich.

Por outro lado, a mentira torna-se uma sátira com propósitos humorísticos quando deixa explícita pelos excessos na fala e o tom jocoso que de fato é uma mentira. Nestes casos é com frequência tratada como não sendo imoral e é bastante praticada por humoristas, comediantes, escritores e poetas. Ou seja, mentirosos literários!

Mas não podemos, de fato, confundir esta mentira, com a mentira na vida real!

Esta sim, é sacanagem!

 

Anúncios

tanta, exceto alegria

Quanta maldade nesse mundo.
Vejo tanta, que não posso deixar de notar.
mal posso continuar…

Escrevo pra permanecer um homem bom
E mesmo que não pudesse, de todo, sê-lo
(e que não é uma inverdade)
Ainda assim veria
a tanta maldade
que me salta e chega aos olhos:
bem mais, até, do que eu gostaria!
Mas que, conscientemente, jamais(!) eu seria.

e dói
e passa
e vai…
e segue o passo em nome
da tanta maldade que sai.
exceto alegria

Palpitando

Panicoração tremo e palpito
muito chôro… grito…! Puto…
irrito…
Chega e passa…
a faca
como na artéria do cabrito
depois grito… e grito
e repito, e palpito,
e suspiro…
então paro
e tenho dito!

Bula nula

sem rótulos
sem pressão
os olhos ardem…
eu leio lentamente, muito antes  de usar.
estou em jejum permanente
mas, uma vez por dia
eu tomo
a critério médico
a dose recomendada

pacientemente sintomático, tratado
conforme o suporte usado na superdose

Não há antídoto
Estou apaixonado

Ligo para o zero oitocentos e procuro socorro médico
peço orientações…
sigo corretamente o modo de usar
mas os sintomas não desaparecem…
azar o meu…

Então, a diurese forçada,
a alcalinização da urina
não são adequadas
devido ao alto grau de ligação
e não é recomendado
porque não desaparecendo os sintomas
o médico deve ser consultado.

E agora?
Foda-se
ou medique-se para sempre!

Bastão que fala

Ontem, dia 7 de junho de 2018, alguém que não enxerga letras miúdas presenteou-me com uma figurinha. Ao entregar-me disse que havia achado e guardado para mim porque não conseguia ler e queria que dissesse-lhe o que nela estava escrito, e porque pensou em mim na hora.

A pequena carta, recortada sinuosamente à tesoura, pela gramatura do papel pareci ter pertencido a algum jogo de revista, trazia atrás uma figura geométrica quase temática, mas bastante típica de fundo de baralho.

Um círculo branco ao centro,  do qual 16 linhas apontam em quatro direções, em grupos de quatro linhas.

Na frente, acima de uma figura central, o seguinte título:

“O bastão que fala”.

Disse-lhe o título e ele me interrompeu dizendo: — e você conhece ou sabe o que é?

Disse-lhe: —Não, não faço a menor ideia. Mas já recebi a mensagem, vou descobrir.

Ele, já tranquilizado, finalizou: —Ótimo, então tá!

Trouxe pra casa, mandei no Google, que me retornou 5.680 resultados, ou seja o treco existe!

Espantando com a ideia de haver uma mensagem naquela carta, abri o seguinte texto:

NativeTime: O bastão que fala

O bastão que fala é um instrumento usado por muitas tradições Americanas Nativas toda vez que um Conselho é convocado.

O Artigo dizia o seguinte:

O bastão que fala é um instrumento usado por muitas tradições Americanas Nativas toda vez que um Conselho é convocado. Ele permite que todos os membros do conselho apresentem seu sagrado ponto de vista. O bastão que fala passa de pessoa por pessoa a medida que a reunião processa. Somente a pessoa que segura o bastão tem o direito de falar naquele momento. A pena da resposta também deve ser segurada pela pessoa que fala a menos que esta dirija uma pergunta a outro membro do conselho. Neste momento a pena da resposta passa para a pessoa que vai responder a pergunta.

Essa forma de procedimento parlamentar é usada pelos Nativos Americanos há muitos séculos e reconhece o valor de cada orador. Cada membro do Conselho deve ouvir com atenção as palavras que são ditas, de forma que, quando chegar sua vez, não repita informações desnecessárias nem faça perguntas impertinentes. As crianças indígenas aprendem a escutar desde os três anos de idade. Aprendem também a respeitar o ponto de vista dos outros. Isso não quer dizer que não podem discordar, mas estão obrigadas por sua honra pessoal a permitir que cada um expresse seu Sagrado ponto de vista.”


Imediatamente decidi que de hoje em diante, 08/06/2018, levarei sempre comigo este recorte!

Na imagem da carta, havia a figura de um bastão e no “rodapé” o seguinte escrito:

Bastão-Que-Fala/Ponto de vista/Opções“.

Juntando tudo no Google, a seguinte definição:

Os conflitos se formam pela incapacidade de ouvir e entender as livres expressões de pensamentos que cada ser humano carrega dentro de si. A mediação e a solução deveriam ser um método simples e, o diálogo, o meio da intermediação. Ouve-se e se fala respeitando e reconhecendo cada indivíduo e suas ideias, tornando cada momento crítico em estímulo individual ou coletivo e respeitando cada um desses direitos.
Bastão-Que-Fala/Ponto de vista/Opções.

Pesquisando um pouco mais encontrei o jogo: chama-se “Cartas do Caminho Sagrado

CARTA 15

 

E finalmente, algum internauta descreve a mensagem a ser compreendida:

Se o Bastão–que–Fala apareceu em sua sequência, você provavelmente não está se permitindo nenhuma nova situação em sua atual situação, ou ficou estagnado em uma única meta, e por isso não consegue vislumbrar a luz no fim do túnel que você mesmo criou.
Abra-se para as novas oportunidades.
O Bastão–que–Fala anuncia que elas estão para surgir em sua vida.  Lembre-se de que todos os sinais da vida e todas as escolhas estão disponíveis para aqueles que sabem ouvir.
Está surgindo uma outra oportunidade para que o seu crescimento se faça por um novo caminho.
Use este presente agora e use-o com sabedoria.

PS.1. Escrevi escrevendo relato durante a pesquisa.
PS.2 O amigo que presenteou-me com esta cartinha chama-se Dom e é “pessoa em situação de rua”.

 

CAIXA ALTA

Se uma cor em caixa alta
me esboça em negrito
Sou amor enfatizado em maiúsculo
Azul, verde, rosa, vermelho e grito
Centralizado e sublinhado de cuidado escrito
Ortograficamente grafado no peito manuscrito
E irrestrito de amor e paixão
Que somente pelo coração em canto de folha
pintado em vermelho ousa
dizer que é verdade
…e eu acredito!

Para quem lê
Não ficam linhas vazias
Não sobram letras miúdas
Pois o poema segue oculto escrito
por dentro, de dentro, no centro,
no fundo, profundo e pro mundo.
E todas as poesias são em si mesmas
caras feias e lindas.
Todas as poesias são em si mesmas
caras de espanto e de susto.
Caras de palhaço, em rostos de convite
ao abraço que nunca ganhamos.
Seja porque falta espaço,
Seja porque falta um pedaço,
Seja porque no meio de tanto traço
Perde-se o compasso, o lápis, a borracha
o negrito, a coragem e o cagaço.

 

 

Árida aflita derrama viva flor em mim

Do teu cheiro derreto-me em aflição,
pois não é minha esta flor
e de ninguém jamais será.

Mas nasceu no meu jardim,
e de tão árido o solo por aqui,
só mesmo um milagre
ter sido assim.

Um viva a tão viva flor
que agora brilha em meu jardim
E que derrama toda sua a luz em mim

(Para o dia de hoje 😉

Proparoxítonas zeugmáticas

 

Música é mágica!

Mas se há dúvida ou êxito nos cálculos, ou na matemática,
em gramática há só crítica pacífica
ao público das “sílabas proparoxítonas”.

Ainda que ótima e sólida a análise última dessa química,
dessa física e dessa tal informática, é tímida na prática.

O exército de Verônicas e Rosângelas,
de Márcias, Ângelas, Angélicas e Patrícias,
de Ândersons, Émersons, Jéfersons e
Fabrícios
daria ao público da “antepenúltima sílaba”
o espírito platônico implícito de uma proparoxítona.
Tão certíssimo e fodástico quanto
pássaros numa árvore frutífera!

O hábito da análise crítica pacífica
é como um ônibus há quilômetros de Petrópolis
num tráfego rodoviário letárgico como o de Florianópolis
mas sem o pânico selvático (e satírico) de um semáforo de Barra Velha.

Acenderíamos a lâmpada elétrica da ética
se o relâmpago artístico do músico reacionário
perturbasse novas vítimas com a linguística de cânticos ecléticos
bem no meio do espetáculo,
onde a mágica é líquida, certíssima, sólida, poética
e tão rápida quanto única.

Ou seja, com o perdão do palavrório, em poucas sílabas:
seria ótimo e um privilégio ver a eficiência de um gênio legendário,
de um gêmeo libertário que não passa de um gáudio felicíssimo!

Sonho-tempestade

De manhã, sonha bela tarde
enquanto tempestade.

O vento brisa esperneia em ventania
o sol joga-se ao chão
e arde sem pôr-se
queimando covarde
a língua que chia.
Engole toda palavra:
asfixia.

O casco, o lombo, o meio-dia
O alarde da pele, inala a ousadia
lacrimeja o ar.
Um tombo encharca o chão,
o sofá, a fome
as cartas e talvez poesia

A brisa faz birra em ventania
durante um sereno covarde
que enfarta-se.
À tarde, sobra nada: birra ou vento ou carta.
E um último vômito vazio de nada e água.

Engole palavra, inala poesia,
lacrimeja seco esgotado
adormece sonhando outro dia.

Esvai-se abatido o feliz matutino bom-dia
frustrado vespertino pela verdade
de um exaustivo, nublado,
tenebroso e triste dia triste.

Nuvem Noite

E passa um avião que me quase leva
Quando ao mesmo tempo cai um pinhão, e eu quase fico
E ai eu sou o amor, que me sempre berra
Espinho rosa, quase flor, semi cor de rosa
Miado e sussurro, insônia que me sempre acorda
Despertador do meu desejo, que molhado me assola
E daquele rio, que a todo instante nascendo, surpreendente me desabrocha
E me faço feito criança, menina, que despertando a noite, chora
Viajo no meu tempo e na falta do sonho,
E da tanta fé, que agora me apavora
Do meu pranto que me falta, e que ri de mim sozinho, lá fora
Na falta da chuva, e do barulho da suplica nascente, que me cai em desalento
E que voraz ora, me consome
e que sabe: que sou eu o lamento lento
Que pelo verso da nuvem soa mais leve, na lua, agora.

A. M. Uhrigshardt
05/05/2018
0h24min, com carinho, via WhatsApp

Sorriu pra mim

Abri a porta
Apareci
A mais bonita
Sorriu pra mim…

Naquele instante
Me convenci
Que o bom da vida
Vai prosseguir

Rosa dos Ventos

Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas morresse de pena
E chovesse o perdão
E nem a imensa prudência dos sábios
Ousou conter nos lábios
o sorriso e a paixão

Minha água

Eu quis amar, mas tive medo
Eu quis salvar meu coração
Mas o amor sabe um segredo:
o medo pode matar o seu coração!!!

Eu nunca fiz coisa tão certa:
Entrei pra escola do perdão!
A minha casa vive aberta,
E abri todas as portas do coração

És minha água de beber!

Protegido: Gostar, apaixonar-se e amar.

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:

Contra o tempo

Nada como o tempo
após um contratempo
pro meu coração.

Querendo ou não
Sempre carregará
as lágrimas pra longe.

O céu, antes cinza-insistente
Cíclico-persistente,
(parece parado o desgraçado)
Se arrasta em doença
por mais um dia…
Mais um dia…
Mais um dia…
Mais um dia…
mas, um dia, repinta-se de celeste.

O tempo, após o contratempo,
e olha que faz tempo, é,
por isso mesmo,
o grande mestre dos oráculos.

Porque é extensível a qualquer vida
A qualquer dúvida
A qualquer obstáculo
A qualquer revés,
Temor ou terror…
É prescritível pra qualquer dor.

É claro que a vida tem seus percalços;
Eu não falo de dores de barriga,
Eu não falo de um mero punhado de brigas…
Eu falo é de uma vida vivida, sobrevivida e
vivificada com valentia e sangue nas veias.

Eu falo de um desgosto, quase que natural,
Que punge a alma e até a própria vida
Que nada é capaz de socorrer
Nem nós mesmos, nem ninguém – nem nada!
Isto é, exclusivamente, competência do tempo!

E ainda que eu fale
do tempo de outro tempo,
Ninguém dele está isento.

Mas ainda que eu fale
que o tempo é um grande mestre,
(Porque ensina forçosamente
a suportar, entender e superar)
Parece contínuo o risco
de que, com o tempo,
eu mesmo orquestre
o meu próprio amadorismo
e torne-me, novamente,
o grande mestre dos idiotas.

Por isso o tempo após o contratempo
é que é bom pro coração,
Porque, com sorte (e tempo)
depois, virá uma nova paixão!
E aí meu amigo,
quiçá tivéssemos nós infindável condição
para calarmo-nos fundo
e considerar deliberada, sensata e seriamente
aquilo que o tempo nos trouxe de presente.

O Samba é meu Dom

O samba é meu dom
Aprendi bater samba
ao compasso do meu coração

É no samba que eu vivo
É do samba que eu ganho o meu pão
e é no samba que eu quero morrer
De baquetas na mão
Pois quem é de samba
Meu nome não esquece mais não

Wilson das Neves
14/06/1936 – 26/08/2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Safada geodésica

 

Geodésica minha querida
amada minha
Nem te conheço e já te amo
como se não houvesse amanhã

Tua geometria,
teus ângulos,
tuas intrincadas conexões

Não domo teu domo
nem conheço nada
de cálculo estrutural

Mas meu mal
é paixão que fulmina
e me acorda do sono:
o mesmo que não
me permite mais dormir

Eu quero as estrelas
não quero os quadrados
Eu quero os triângulos
Eu quero os pentágonos
Pois que deles saem as estrelas

Não quero os hexágonos
e muito menos outros polígonos

Quero todos os sólidos platônicos
em meu coração poligômico

Não quero apenas retas aleatórias
ou ângulos inexatos
mal calculados
quero tu inteira, não meia

Quero os 179 graus de ti
porque meu altruísmo
deixa 1 grau de ti para os demais
só pra manter o ângulo reto

Não me importa nada
me importa apenas tu

Tu inteira!

Minha formosa e rica!

Infinito

O infinito é puro
Mito é conflito
Emito, dito e repito.

O infinito é mito
Puro é o conflito
Maldito finito.

Fito o-mito
Cito o bendito e
digito irrestrito
Que mito é grito.

Dito e redito
Ressuscito o mito
Recito e solicito
Que infinito é puro.

Puro e esquisito
Assim como
grito de mosquito.

Não limito
o infinito ao finito
Não acredito que levito
e não desacredito
que irrito, isso eu admito.

Não me limito
pelo descrito e
não limito jamais
o infinito.

Entre grosas

Vida é fenda
que torce a sorte

Dor é o prego que
martela asas
meus olhos
fazem morrer
as flores que molhei

quebram-me os ossos
impõe-me a lei
e me transforma em porco
rastejando em sangue
pensando ser lama.

Vida é machado
que me (des)afia
marchando manchado
de sangue
todo dia
me estripa
me asfixia
É torno que me esmaga
o corpo

Pobre coração meu
suicidou-se
e não resta mais noite
não basta mais dia
Resta açoite e sobras de ontem
E a teimosia dessa carne
vagando à revelia

Vida que serra por mar
serra por terra
e gotas caem ao chão
anunciando que a pá já pode
cavar meus palmos

bem ali, no chão.

Caçadores de arte!

Poesia, onde encontro?
Onde encontro poesia
num conto;
Poesia encontro
numa narrativa;
Poesia, sempre linda!
Sempre presente!
Sempre arte!
qualquer arte
que vejo pela frente!

Mesmo aquela
que não usa a palavra
mesmo aquela
que não usa a palavra
decentemente

Poesia é uma linguagem
que comunica através de sinais
signos convencionais,
sonoros, gráficos ou gestuais

A poesia aparece dentro
de um romance. Poesia
aparece dentro de uma poema,
de um crônica. A linguagem poética
está lá.

Está lá como
poesia. Não está lá
como poema. Poema
monta sobre o ritmo
metricamente,
tem figuras de estilo;
e é organizado como poema
e rima, ou até não rima,
necessariamente.

Numa narrativa haverá poesia
Sem versos, necessariamente
passando por cima sonoramente
do que se diz poema

Mas na poesia,
que até na fotografia existe
Não precisa de nada disso que o poema
Diz que deveria ter

Poesia é putaria!

Apavora no muro, no chão
na parede, no papel da livraria
linguagem poética
que assombra a visão!
o som;
a palavra;
a canção!

Em qualquer coisa
que abale nossa estrutura
imediatamente
é poesia!

Que te faça pensar
imediatamente
que valeu a pena
ler ou ver aquilo,
aquela sensação de:
“eu tenho que tomar partido disso!”
ou de: “Eu preciso avisar alguém!”

Isso é poesia!

Poema é o verdadeiro texto poético
que se utiliza de poesia enquanto
tem forma esperada!

Verso, estrofe,
aquele blá, blá, blá
Que açoita e faz o bicho pegar dentro da gente!
Assim como numa caçada.

Só agradeço que tem Leminski,
Agradeço que tem Jobim!
agradeço que tem Pessoa
agradeço que tem Leonardo!
agradeço que tem Carlos de Andrade,
agradeço que tem Gullar!
Agradeço que tem Buarque!
agradeço que tem Odisseia!
agradeço que tem Botticelli!
agradeço que tem Coralina!
e toda a energia que agora me ensina!
Agradeço que tem de Morais!
Agradeço que tem Piazzolla!
Agradeço que tem tua fotografia!
Agradeço que há tua poesia!
Agradeço a toda arte que já vi!

O que me conforta
É que existem bons poemas para se ler
muita poesia boa para se apreciar!
E toda a arte ainda por caçar!

Obrigado a todos que usam
linguagem poética
em suas vidas
e a trazem pra minha!

Dia após dia

Eu já tentei
várias vezes
viver mais de um dia
de cada vez,
mas não dá!
E só dá mesmo
pra viver um
de cada vez!

 

 

 

 

Palhaço que não ri, chora

Tenho escrito mais…
Mas tem tanto de mim no que escrevo
que não preciso mesmo
evidenciar-me para além disso

eu estou totalmente escrito aqui…
estou inscrito em carne e inscrito em osso,
escrito em alma e descrito em desgosto;
com mais este drama agora –
que aliás desgosto,
quase obrigado e tantas vezes
a pleno contragosto…

Mas, às vezes,
eu até que gosto do gosto e engulo…
Sobretudo quando o meu
palhaço interno aparece da coxia
esperando a sua deixa
e me faz dar um gargalhada daquelas
que até em outra dimensão alguém ouviria

(como essa!)

Este escrito não é poesia é
a própria palhaçada que,
de outra forma, jamais
alguém ousaria dar um minuto.

No fundo eu não sou um grande boçal
Eu só não queria estar tão inscrito
porque não aparece o meu palhaço
divino e celestial
Apenas essa merda grotesca,
chata e metida a visceral

Mas que mal, afinal?
Palhaço que não ri
ou só chora
ou chora de tanto rir.

A ventura

O presságio
se debruça no espanto
quando solidificam-se
episódios antes implausíveis.

Fora de ordem,
o mirabolante cumpre-se do que decorrer
e fulminante surge do que resultar,
sempre impenitente.

Digno de abandono
o vaticínio é sempre traiçoeiro.
Flácido se cobiçar rigidez,
pedregoso se desejar polidez,
incalculável se quiser numerá-lo,
sempre improvável de acertá-lo.

Entretanto, se,
das peripécias do acaso,
que sempre se avizinham,
o incerto apresentar-se,
e tudo o que se pensava ser mero imprevisto
fincar em nossa existência o seu fenômeno,
sem pudor, como sempre,
gestar atrevido em nossas, então, assombradas biografias,
iluminar-se-á a premissa de um golpe preciso,
da palavra magistral, duma assertiva e bela cartada.

Free will

A liberdade
tem um preço:
o livre-arbítrio.
E este tem o seu:
a responsabilidade de fazer
a escolha mais acertada.

 

1 1 1

Eu sempre vi a vida
de uma forma bastante síncrona.
Desde menino ia na Ordem
com minha avó. Amava.
Tanto ela quanto a coisa do místico,
do oculto, do indisponível naturalmente.
Nem sabia o nome de nada disso.
Nem sabia que estas coisas tinham um.

Eu tenho uma coisa em mim
Que é penoso traduzir
Porque nunca “bate” com a palavra

Mas acho que posso chamar,
então com aspas mesmo,
de “paixão”… que é a música.

Não é paixão, é o ritmo da coisa
Que me pega feito paixão fulminante

Não é amor é o batuque…

Porque amor não vem e vai!

O violão, sim, vem e vai: por causa
de um probleminha que eu tenho
com a minha amiga coragem…

Eu falo da voz, do som, da poesia, da melodia
da alma da parada.

O ritmo é que me mostrou
No meu viver
(e sem que eu pudesse perceber)
Que há mesmo uma espécie
de sincronia em tudo!

Um tipo de ritmo universal
Que pulsa, sozinho, independente.

Hoje eu não duvido mais nem
da sincronicidade do universo…

Hoje eu me sinto mais esperto com essa coisa.
Estou mais atento, mais observador.

Também fico confortável
com quem preferir chamá-la de coincidência.
Porque, pra mim, o que importa é que acontece, simplesmente.

O nome pouco importa, o que importa é que,
sendo amigo da “coincidência”, ela me ensina a ver melhor.
(quiçá pudesse entendê-la antes de outra vida)
Ela ensina-me a ver
ela ensina-me a aprender a ver direito…
Isto é a sincronicidade pra mim.

Por exemplo,
a sincronicidade nos números.

Em diversos estudos, o número UM é “reconhecidamente” sagrado:

UM é o início.

UM é o princípio.

UM remete à criação.

Uno.

Uma vida!

O indivíduo!

One.

Eon!

O indivisível UM!

O DOIS também tem suas “divinas” particularidades,
mas é tão comum que é quase impossível pensar
teosoficamente sempre sobre ele.

No entanto é mais perceptível quando olhamos para as “dualidades” das coisas:
o céu e a terra,  amor e ódio,
a luz e a escuridão, a verdade e a meia-verdade,
os paradoxos, enfim.

O DOIS também simboliza os extremos, os opostos.
Conforme o ponto de vista, os opostos podem ser considerados uma mesma coisa
ou seja, o DOIS também é o UM,
pois quando cada dupla de extremos possui uma mesma natureza
como o quente e o frio, o ódio e o amor
hermeticamente são considerados uma mesma coisa
apenas diferentes em graus nas suas respectivas “escalas”…

“A transmutação é a capacidade
de mover-se de um extremo em direção ao outro
buscando o equilíbrio
bem no meio!”

O DOIS nasce do UM.

Um casal surge de DOIS indivíduos,
seres únicos, que quando resolvem,
juntos, fecundam o UM: o filho
ou seja, a vida!

Mas 2 é a terra onde 3 é o céu:

O enxofre, o mercúrio e o sal.

A trindade.

A Trinity de Matrix!
(mulher de “Neo” – coincidentemente ou não)

A triangular sabedoria do três.

É o princípio agindo…

De UM indivíduo que junta-se com mais UM indivíduo
forma o casal: DOIS.
Deste surge o filho, que faz tudo virar 3!
Que faz tudo voltar a ser UM: a família.
(sempre passível de expansão – é claro)

Agora imagina o “divino” UM
repetido TRÊS vezes:

1 1 1

O cento e onze é mágico! Esse sim!

Um exemplo de sincronicidade dos números, no caso o 111, nos livros:

Se eu pego uma edição de um livro qualquer nas mãos
e tenho algum interesse em descobrir algo sobre o seu potencial de sincronicidade comigo, ou apenas ter uma ideia do que o autor(a) tem pra me oferecer, principalmente naquelas edições que eu ainda não li, abro, quase sempre, primeiro na página 111, se ela estiver disponível obviamente, senão abro na página 55 – mas esta parece que não funciona tão bem!

A primeira mensagem – ou a última – nessa página 111, quase sempre revela se o autor está em sincronia comigo. Geralmente a mensagem se mostra acertada para o meu momento. A primeira ideia ou a última, nessa página. Depois é que eu busco pela editora, pelo prefácio, pelo índice, contracapa, essas coisas…

Vejamos um teste em tempo real:

Tomei o dicionário Lya Luft, edição de 2003, página 111 (…)

Primeira palavra da página: “Beirada”

(…)

“risco”? Me pergunto!

Leio então a última palavra da mesma página:

(…)

“Bem-criado”.

Ou a Lya Luft é “raçuda” mesmo ou
“o bem-criado está na beirada”…

Até me fez lembrar deste texto
Um Salto em 13/07/2017 other-tab
que trata exatamente desta minha sensação recente.

Achei curioso também que nesta mesma página
aparece a palavra “Belzebu” (Diabo).
Essa dispensa apresentações…
E vem figurando exatamente antes da palavra “bem” (no sentido virtude)
e que vem antes de outros “bens”, nesta mesma página, na seguinte ordem:

“Bem acabado”;
“Bem apessoado”;
“Bem aventurado”;
“Bem-vindo”;
“Bem-avisado”;

(…)

O 55 é uma espécie de irmão mais jovem do 111.

Geralmente o 55 aparece como uma mensagem de que aquilo que eu estou fazendo na hora está certo e que estou me preocupando à toa.

Se por acaso, não me parece muito certo aquilo que eu estou fazendo,
a mensagem vira um “precisa refletir mais sobre suas ações” principalmente esta que resultou um “55”. (rs)

Coisas do meu ser mais louco que há!

E o mesmo ocorre com o número 89, mas de outras formas.

Na sequência Fibonacci,
que eu usei bastante no mercado financeiro,
e é simplesmente bizarra, estes dois números
têm a relação de que 1,618 (o tal do número dourado)
que eu uso em tudo que posso e me lembro,
multiplicado por 55 noutro número bizarro: 88,99

É como se me dissesse: arredonde isso para 89″ e fique atento! (rs)
Por isso, para estes dois números eu determinei um maior grau de importância.

E é incrível onde eles aparecem pra mim!

Mais um teste em tempo real:
página de um número “famoso”: 666
(já que tem esta)

(…)

A última nesta página: vazio
“oco”, “vácuo”, “falta de espírito”!

Eu achei perfeita!
mas é só um exemplo que eu assumi que iria colocar aqui…

Eu boto fé, mesmo que muitas vezes
Eu não consiga entender, mas
eu consigo perceber que estão ali.
(mas entendo também qualquer um que “não bote fé”)

O que importa é que prestamos mais atenção
quando nos abrimos a isso!
Este é o meu próprio estudo empírico…
E quanto mais eu presto atenção aos números,
mais me surpreendo.

Acredito no exercício disso,
como se pudéssemos “evoluir” nessa percepção.
Acredito que a sincronicidade dos eventos
é uma questão de percepção.

Já li que as pessoas que passam pelo
processo iniciático desenvolvem
maior sensibilidade à “sincronicidade”.

Aquela mesma que Jung escreveu sobre,
tentando validá-la.
(pra mim à esmo)
Jung era “o cara”,
mas não foi feliz nesse trabalho!

Eu sou mais hermetista nessa hora
que fã de psicologia analítica, que
aliás, eu também adoro,
mas enfim.

Entendo ser possível explicar isso
de muitas outras formas diferentes
e igualmente sem nenhum fundamento lógico
ou nexo causal

Mas entendo que, talvez, no fundo,
jamais possamos explicar nada disso.

Por enquanto
me conforta que não é proibido observar!

Em frente

Nem tudo aquilo
o que se enfrenta
se pode mudar,
mas absolutamente
nada muda
até que se enfrente.


 

Ajuizamento

Uma balança
pesa seu coração
De um lado
E do outro uma pena
Pesa, julga, sabe

Toma nota
Do peso
Pesa, julga, sabe

O bem nascido nasce
Morto
E morto renasce

Olha para o céu
E ele não está mais azul
Não há nada sobre a sua cabeça

A escuridão ascende
E a luz se apaga
Não há nada

Há o peso,
O julgamento
E o saber
Que se sabe

Não há nada
Não há tempo
Vai-se o peso
Vai-se o julgamento
Vai-se o saber

49 dias depois
Nasce, cresce
por meses e esquece
Não volta e jamais
lembrará

Há o peso
Há o julgamento
E mais nada

Pirâmide dos déspotas

TIRANOS
SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM
EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM
EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM ENTRE SI.

Cura-curitiboca

Arthur Virmond de Lacerda Neto

(Pronuncie “curitibóca” e não “curitibôca”.).

5.V.2014. CURA-CURITIBOCA .Lanço, hoje a campanha cura-curitiboca. Em Cascavel, há uma receita para curar o mau humor dos curitibanos; aplica-se o remédio por meia hora.Qual é, não digo, mas quem mora lá entendeu a pilhéria. Há exceções aos curitibanos-curitibocas.
Primeiro exercício: fale com um estranho hoje. Cumprimente alguém: diga-lhe bom dia. Não interessa se não costuma conversar com ele. É exatamente nisto que radica a eficácia da terapia: interagir. Encoraje-se! Não se preocupe com o que os outros vão dizer ou pensar de você! Vá lá! Força, curitibano!

 CURA-CURITIBOCA, parte 2. Reflexão de hoje, para curar a insociabilidade dos curitibanos. O ser humano é social e sociável; vive em sociedade, convive com pessoas. É ser que se comunica, que fala, que pode falar; que ouve. Curitibano-curitiboca, exerça as suas faculdades humanas: seja sociável, fale, comunique-se, ouça, queira ser sociável, queira interagir, queira falar, queira…

Ver o post original 2.189 mais palavras

Ah! Amarelo, seu danado!

Ah! Amarelo seu danado!
Não se finja de canário
Não se faça de rouxinol
Deve estar é apaixonado
Ou com inveja do sol!

Ah! Amarelo seu danado!
Deve estar enfeitiçado
Mais fisgado que anzol
Deve ser recém-casado
Ou mais enrolado
Que um azarado caracol!

Ah! Amarelo seu danado!
Vem cantar aqui do lado
Deve estar desafinado
Ou perdeu-se no bemol
Não se faça de dourado
Não tem poesia de fracassado
Que lá sustente sol com dó!

Ah! Amarelo seu danado!
Fazendo-se de laranja no gramado
Não entende que o pecado
Não passa de um recado deixado no lençol.

Os Votos

“Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a lhe desejar.”

por Sérgio Jockymann
Folha da Tarde Porto Alegre
30 de dezembro 1978

De Camões à McKeena

Tô morando escondido
Debaixo de pilhas descarregadas
de livros e partituras,
gramáticas e literaturas.

Tenho umas aulas de cervantes
e solfejo e fico riscando círculos das quintas
todas as quartas e sábados.

Aos domingos pulamos as quadras
de Nostradamus em meio a
montes de editais que acumulamos

Na Cabala ou no Caibalion,
Entra escala e sai semitom
Quem fala são os diálogos de Camus
E, na mesinha, uma garrafa (quase parecendo xixi)
de vinho bordô vagabundo
Na falta de um bem seco Sauvignon

Me dá vontade de fazer como
Mckenna e sair caçando
cogumelos no campo, só pra ver

Aliás, adoro a teoria dele,
de que a evolução da nossa consciência
Só veio mesmo por causa das plantas.

O salto só foi possível
por causa da Psilocibina:
minha linda!

E o acidente que criou o LSD…
daria belíssima substituta
Mas ninguém vai permitir esse negócio
de expansão da mente, já pensou?

Sente um bem feito Daime
ou vai na Ayahuasca da Amazônia
pra você ver o tamanho da pedrada.

E se estiver preparado e
a cobra aparecer,
não tem verso que explique
se você perceber que és
mesmo do tamanho do universo.

Mas esse é tema
pra um outro verso.

Pega a tua teoria e enfia

Você tem uma teoria?
Pega tua teoria
e vê que a tua pergunta
já foi feita.

Põe no Google
em todos os idiomas
Lê que, alguma pesquisa,
já foi feita.

Junta teorias semelhantes
E põe-nas à primeira prova
Comparando-as entre si.

Faz conexões.
Lê estudos.
Lê teses.
Vai na bibliografia que
já foi feita.

Soma tudo, divide,
subtrai e multiplica.

Quando estiver
bem por dentro da tua teoria
Parte para os escritos antigos
Parte para trás, no tempo
E verás que tua teoria
já foi feita.

Vai fundo,
soma tudo o que estiver escrito
Vai chegar em Roma
Vai chegar na Grécia
Vai chegar no Egito

Quando perceber
Que a sua teoria
“Termina” na biblioteca de Alexandria
Nota que estás no caminho certo.

Mas vai mais longe,
Segue adiante,
Vai pro oriente.
O que não está na China, na Índia,
ou semelhante
não estará no ocidente.

Vai mais longe,
Vai pra onde nunca esteve antes
Vai pra antes das pirâmides
Vai para antes dos Atlantes.

E quando as estrelas começarem a salpicar na tua frente
Vai lembrar que tudo sempre esteve ali, bem na sua mente.

Combinações rimânticas!

Eu rimo
Poesia com o que dá
E, do que der, ela se fará.

Lembram das rimas impacientes que saltitam
pulando pra lá e pra cá
Subindo e descendo morros,
assim como que tonteando sobre vales e cumes, aos montes?

E que rimam a movimentos constantes,
e não parecem jamais que estão parados?

Belos sonetos rebuscados,
Quase que abençoados
Cheios de colóquios sábios e quentes
E, no entanto,
bastantes bem apresentados,
meramente

A rima é tosca
Mas dá som
E soa sóbrio
no falar

Não tem melhor pedágio
nem melhor atalho pra calhar
como esse
Que rime, à solta,
mesmo sobre um verbo de articulado estreito,

Pois que não dói nada no peito,
E aliás,
Não há nada mais direito
Que rimar
amor com peito.

Deixa vir…

Finalmente,
um ponto final.
depois de tanto prorroga,
protela, suspende e cancela
Um ponto no fim
da demora!

Acabou
e chegou a hora de entrar
no primeiro lugar
e dar com o pé na prateleira
e fazer tudo voar.

Algo cessa
quando algo inicia
e também principia
quando outro acaba.

É tão claro e evidente
mas, nem por isso, é sempre
tão óbvio.

Deixa vir, deixa vir…
que da minha esperança
entendo eu

Deixa vir, deixa vir…
que minha confiança
nunca tem fim.

Intuição jamais
se engana.

Deixa vir que eu sei
que um novo começo
traz nova estrada.
Mas eu não tenho medo de nada!

Deixa vir
que eu sei
que tem pedras
pelo chão; Mas eu
não tenho medo de nada!

Deixa vir
que só eu sei
onde eu posso chegar!

É o desafio que vale a pena!

Hoje não, amanhã talvez

Tem gente fazendo coisas tão belas
E eu não passo de uma suja remela
Aglomerada no bordo da conjuntiva

Tem gente falando coisa tão educativa
E eu mal consigo usar um vocativo
E chamar alguém pela janela

Os moços usando palavras decorativas
E eu mal encontro uma frase suja ou corrosiva
Ou palavra engraçada tipo pinguela, biela ou tramela

As moças falando em flores, odores e sabores
E eu mal consigo dizer puta merda, que fedor!

Maturidade emocional

Nossas certezas
produzem todo o mal que vemos
(e o mal que somos)
Nossas certezas
nos fodem e mal sabemos disso;

Não abrimos mão,
De jeito nenhum;
e o pior é que
não é nossa culpa.
A culpa é de todos ao nosso redor.

Mas eles vomitam o que comeram, não é?
Vendem o que compraram…
Não os culpemos!
Afinal, nem fazemos ideia do que não sabemos…

Estamos sempre na fiúza da nossa genialidade

Somos sapientes;

Sabemos de tudo;

Pior que adolescentes, pois estes realmente não viveram a vida ainda;

Nem imaginamos que nossas referências são assim como nós;

Nem imaginamos que todos (inclusive nós mesmos) podemos estar TODOS enganados;

Mas a pergunta é: quando foi a última vez que mudamos nosso ponto de vista sobre alguma coisa?

Se tiver que pensar demais…

bem-vindo(a)!

Todos os eguinhos ao nosso redor são de cristal;
Sensíveis como cata-ventos na ventania
Tudo lhes atinge!

Maturidade emocional
não tem nada a ver com
idade cronológica.

Se precisa que o outro “esteja sorrindo” para você sorrir…

Se precisa que o outro lhe “dê bom-dia”, para você dar bom-dia…

Se precisa que o outro “lhe acolha” para você acolher…

Se precisa que o outro “faça” para você fazer…

Se “precisa” que o outro seja o que você quer…

Precisa observar-se mais.

Precisamos nos observar mais!

Colar de palavras preciosas

Eu deveria passar o dia
Falando mais com as pedras.
Eu deveria passar o dia
cantando mais pra elas.

Eu deveria invocar a solidão,
Pois estou punhado de falar.

Eu deveria
usar mais as minhas
preciosas palavras
com pedras mais valiosas.

Seriam preciosas
as pedras às quais falo agora?

Vejamos,

as cores não são bem definidas
e são claras demais para
se dar algum valor.
E sei que não são diamantes!

Sei que podem
possuir rachaduras
mas não às vejo a olho nu.

São lapidadas que eu sei.
Mas seriam bem feitas?
Talvez muito rasas,
talvez muito fundas,
talvez muita estreitas.

E o quilate?
Uma pedra de dois quilates
valeria mesmo mais
que duas pedras de um?

Talvez eu seja demais exigente
Talvez esteja colocando
gemas demais na mesma cesta.
Talvez meu gosto pessoal seja um saco,
verdadeiramente…
Mas gosto não se discute!

E você,
o que leva em consideração
ao avaliar uma palavra preciosa?

Metáforas sem fim

Eu vou dizer um negócio
Sem justificar, apenas para clarear

Antes de mais nada…

Eu escrevo certas coisas
apenas para que elas
não venham a cair
no esquecimento…

Muitas vezes
escrevo de forma inversa
daquela que penso.

Eu vejo isso o tempo todo.

Mas eu as deixo registradas mesmo assim
apenas para não caírem no esquecimento.

Isso é muito bom pra mim,
no entanto,
pode ser que, às vezes,
Seja bom só pra mim!

Vamos chamar de metáforas!
(mesmo que muitas vezes
sejam apenas antíteses).

Pode haver apenas cinismo,
Mas também pode haver cinismo
fundido com metáforas!
Muitas e muitas vezes não haverá apenas cinismo,
Mas muitas vezes haverá metáforas!

Pode haver apenas sarcasmo,
Pode haver sarcasmo fundido com metáforas!
Muitas vezes não haverá apenas sarcasmo,
(como diz minha filha: nem todo mundo entende sarcasmo!)
Mas muitas vezes haverá metáforas!

De qualquer forma,
Não assine nada do que escrevo.
Pois eu não sei mais escrever sem usar metáforas!

Fogo no gelo!

O fogo se move
sempre para cima
mesmo quando viramos
a chama para baixo,
ela sempre sobe,
não pode descer.

O fogo é um esforço para alcançar o ponto mais alto,
o ponto ômega, a apoteose.
quando se observa uma chama,
pode-se vê-la apenas por alguns momentos,
por uma fração de segundos,
e depois ela desaparece.
Assim como nós,
quanto mais alto vamos,
mais desaparecemos…

Quanto mais descemos,
mais sólidos e duros como pedras nos tornamos.
Observemos a água: quanto mais ela desce, mais esfria,
até começar a congelar; torna-se gelo, como uma pedra.
Todo o movimento cessa — e fica lá estática como que morta.

Quando a água congela,
temos que derretê-la com fogo para
que o movimento recomece.
Temos de aquecê-la para
que atinja os cem graus
e então comece
a mover-se para cima novamente.

Existem três estágios:
nenhum movimento,
que acontece quando se está congelado;
o movimento descendente,
quando se é como a água;
e o terceiro, quando se evapora:
o movimento ascendente!
Vivemos nos três estágios
simultaneamente.

Partes de nós são como o fogo,
partes como a água
e há partes bem congeladas.

Sempre existe em nós
uma parte se movendo para cima,
E às vezes sentimos como
se fosse puxada para baixo —
essa é a angústia.

Sabemos que
algumas coisas em nós
caminham para cima, para o alto,
e nos sentimos como pássaros;
e parece que podemos mesmo voar,
mas apenas por alguns momentos;
e mesmo nesses momentos
a maior parte de nós
está pendente como uma pedra.

É preciso apaixonar-se para se mover,
É preciso atiçar o fogo para ascender;
e mesmo que não estejamos
“voando nas alturas”
pelo menos
não estaremos nos movendo para baixo.
E mesmo que muitas vezes estejamos
nos movendo para baixo,
ainda é melhor do que estar congelado
como uma pedra!

Do vale ao cume

Tem coisas…

É tanto vale

Que só me resta o cume.

 

Pazes

Muitas vezes temos que aturar
tanto meia-roda na vida;
por motivos diversos…

Parece demorado se lembrar
das pessoas que nos afastamos
por escolha, por raiva
ou por esperar demais delas,
enfim…

Temos que nos religar
às pessoas que valem mais.

Mas é assim,
precisamos ver o escuro
-bem escuro- primeiro
para que então haja contraste com a luz!
Então surge a vontade de dizer basta:
vamos ao que interessa,
vamos ao que importa
de verdade.

Imprevistos

Atrás, vem o que já foi
E vem o que será
agora.

Depois de agora
vem o que foi antes
e antes foi o que será
agora.

Ciência e Religião

Toda religião é muleta
Pra quem anda manco.
Toda ciência é manca
Pra quem não encontra
Uma.

Uma,
sem provar nada,
oferece tudo,
Enquanto a outra
nega tudo o que
não pode provar!

Opostos
que se repelem
E formam crentes
em seus extremos
a cada dia,
a seu modo.

A primeira afasta
pelo exame
do que não prova.
E a segunda elimina
a chance do incerto
em se tornar uma.

Tim-tim

Uma taça não faz tim-tim
a não ser
com a própria garrafa
que lhe serve

no tim-tim que estala
apenas um único sorriso
sozinho.
garrafa não sorri
sorri apenas
quem vende a garrafa

Ao sorver dessa taça
daqui a pouco sorri
enlouquece esquecendo
que uma taça
não celebra nada
não preenche nada
exceto a solidão
da companhia
de uma garrafa

duas taças
é bom sinal
há conquista
aquele tipo de celebração
que só se conjuga
entre duas taças.
enquanto cheias
se amam
é garantia de união
de preenchimento
onde há duas taças
não há solidão

já três taças
configura plena celebração
é muito bom sinal
é entreunião
é muitos
é todos

quatro taças
é quase o mesmo
que duas
é o tipo de celebração
que se conjuga
de duas em duas
o dobro de duas
é super celebração

mais do isto é festa
é comunidade
sem nenhum tim-tim
várias taças cheias
que apenas preenchem
vazios
na frente
das crianças o que é
pior do que a solidão
de beber com uma garrafa
que agora também
deve estar
vazia.

Então quer ser um escritor?

poemas rápidos e moderninhos

é fácil
parecer moderninho
quando se é um completo idiota;

eu sei que escrevendo poesia
estou pondo
pra fora um monte
de lixo assombroso
mas não é tão
medonho quanto o que vejo
dentro de revistas de consultório

eu sempre fui
honesto comigo mesmo
desde pequeno
evitei fingir que sou
uma coisa que não sou

é um fracasso duplo
o da vida e o da poesia
quando acerta num, erra noutro

meu nome pode ser este
pode ser qualquer outro
pouco importa

toda torcida é feita de gente morta
que pede por um vencedor
esperando trazê-los de volta
para a vida,

mas não é tão simples assim

Como a poesia está morta
eu devia
estar enterrado também
quebrar minha caneta
parar de me enganar
com poemas grosseiros
jogar todo papel pela janela
e sair por aquela porta

Porque eu não passo
de um completo idiota
fazendo
poeminha rápido
e moderninho
sobre a minha própria derrota

 

Uma releitura do poema
“uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos
Charles Bukowski

Eu mantenho um diário

Eu mantenho um diário
Que contém quase toda a história da minha vida
Tudo o que eu já vi, passei, ri, pensei
Ouvi por aí ou me disseram, está escrito lá.

E neste diário tenho regras que sigo
E uma delas eu vou quebrar agora:
É a regra de nunca falar sobre a existência dele.
E está quebrada!

Outra regra que sigo
É a de nunca mencionar onde ele está
Ou quando comecei a escrevê-lo.
Mas estas regras eu não pretendo quebrar.
Não posso sequer revelar outras regras,
pois só esta regra que eu quebrei
já pode me trazer muitos problemas.
Afinal, quem quer conviver com alguém que quase nada esquece?

No entanto, quando eu partir,
Quero que leiam meu diário para os presentes.
Quero que todos tenham a lembrança das suas participações na minha vida,
e das minhas nas suas, boas ou más.
Porque tudo está lá, inesquecivelmente lá.

Se por acaso, você esquecer do que me disser
Lembre-se de que eu tenho tudo escrito.
E você deveria fazer o mesmo, porque, afinal,
você não vai querer deixar as suas lembranças
sob a responsabilidade de uma memória feita para esquecer.

Se fosse para eu mostrar,
E rasgasse uma folha do meu diário
que contém memórias de mais de vinte e cinco anos,
qualquer um de nós iria manter o seu próprio diário.

Na capa do meu diário está escrito:

“Para esquecer de um dia só é preciso outro”

Moeda rara

O que está no alto é como o que está embaixo
O que está embaixo é como o que está no alto

Uma moeda rara, mesmo extraviada,
não perde o seu valor.
E, até que seja encontrada, seja caída ao chão
ou em similar condição, vale até mais.

Haverão de pisá-la os mais descuidados
Ou de ignorá-la os mais imprudentes.
Poderão tomá-la às mãos os mais otimistas
Mas somente saberão o seu valor
Aqueles mais conscientes.

Em qualquer bolso
Mantém o seu valor
Não precisa ser do linho
Pode até conter furos
Onde quer que esteja
No chão ou nas mãos
Tem o mesmo valor
É a sua singularidade que a torna preciosa.

Aqueles que tiverem grandiosidade
E olhos bem treinados
poderão dar-lhe o devido valor.
Mas, de qualquer forma,
Ela continuará sempre sendo rara.

Preso entre o gado

Da força que me tem um brado
Lança fogo com feroz recado
Ferindo qualquer desavisado
Que seja ciente ou alienado

Que se perturbe a paz de qualquer um
Que esteja em plena e total normose
Para que saia do mundo comum
Despertando de sua profunda hipnose

Mas não!
Permanecerá preso entre o gado
Pois que rebanho que não está fechado
Perdeu, não é meu, ou foi roubado

Percebes a porteira entreaberta
E foge do que estás cercado
Houve o grito de alerta
E grita, pois que faz certo
Mas antes de sair
Deixa o portão entreaberto
Pois não se sabe quem é próximo
A ter seus olhos abertos

A Arte da Decisão!

Arte é decisão!
Desde a escolha do material à técnica utilizada,
Desde a escolha do suporte ao instrumento da expressão.
É tudo escolha!

O resultado é desconhecido,
A pretensão é requisito
A pretensão gera um impulso
Que, normalmente,
É atendido pela decisão.

Da escolha de por onde começar,
À escolha de quando parar
É decisão do artista!

As palavras da poesia…
As cores da pintura…
O tom da melodia…
A mensagem do poema…
As formas da escultura…
O enquadramento da fotografia…
É tudo decisão do artista!

A beleza da arte está
Além dos recursos,
Além das técnicas,
Além de onde se chega,
Além do que nos causa,
Está no momento exato
Em que o artista diz:
-pronto, terminei!

A arte toma sua forma
E está pronta para ser apresentada
Tudo o que foi decidido está ali, acabado.
Todas as decisões foram tomadas.
Por isso possuem beleza.

Vale para qualquer arte
Enxergar o momento
Em que o artista diz:
-pronto, acabei!

Jamais não voltarei!

Poesia, poesia
Que maldita querida e paixão minha
Tão só fiquei, estou – parti – chorei, fiquei, voltei, chorei de novo aqui
Não só lamentei e sofri como corro, corro e voltei correndo, mas agora chega!
Chega dessa palhaçada! Atordoada
Te deixei
Mas voltei e nenhuma vez tornarei a deixá-la
Prometo porque não voltarei
a deixá-la
Nunca voltarei – nunca mais
a deixá-la
Nunca mais
Vou deixá-la
Jamais! Não voltarei!
Vou deixá-la!
Não voltarei!
Jamais não vou voltar!
Não vou deixá-la!
Não, vou deixá-la!
Não vou!
Não, vou!
Não!
Vou!

Volúpia

Ela nua de vitalidade
Apenas de cabelos ondulados
Lasciva, vestida de coragem
Beija em minha ausência
Em total paixão selvagem
Ensopada de desejos
Sonhos e vontades.

Em excessiva e plena intensidade
Abraça sem qualquer formalidade
Destemida toma parte da orgia
Como quem doma fera
Apaixonada e atrevida.

As mãos na escuridão do instinto
Tocam contornos sufocantes
São capazes de correr qualquer risco
Sentem lábios frescos e molhados
Repletos de vaidades,
Intimidades e brilhantes.

Se entregam de corpo em cansaço
Ao fim da busca de pureza e paz
Os braços tomam formas de lótus
Que adormecem em brisa vivaz.

Em corpo fértil de água doce
Corre límpido sorriso matinal
Acordam como em flores sol dançante
Na estação lápis-lazúli de cristal.

Linha

I

Tem um coisa que eu quero contar,
Que eu não sei bem como é que eu vou dizer.
Só peço que tenha um pouco de paciência comigo.
Porque se eu tiver que ficar dando voltas,
Indo e vindo, parando e voltando
até que eu consiga completar a ideia
E te contar o que vem na minha cabeça.

Porque essa coisa também fica dando voltas,
indo e vindo, parando e voltando
Sem a ideia nunca se completar.
Mas eu te peço paciência porque
Eu quero muito te contar.

Pense num círculo…
Pense numa coisa infinita…
Pense em alguma coisa que não tem começo,
Mas que também nunca termina.

Pense num trem!
Não, pense numa linha de trem!
Uma linha bem descrita
Que parece infinita,
A linha que vai é a mesma linha que vem.
Uma linha sem direção
Uma linha que passa por todo lugar
Mas não leva a lugar nenhum
Não existe estação
O trem apita e não avisa
A linha não existe, mas permanece infinita
Meu coração palpita
Parece que meu cérebro frita
Como se fosse a linha
Da minha própria mão
Que pula de uma pra outra
Sem destino, sem parada e sem estação.

Peço um pouco mais de paciência
Porque eu sei que esse negócio de linha
Não leva a lugar nenhum

Então faz assim:
Imagine uma fita
Mas uma fita que também é infinita
E apesar de infinita,
Tanto pra frente quanto pra trás
Assim como era a linha,
Essa fita agora tem uma borda,
Uma borda que de alguma forma
Limita a fita em alguma direção!
Agora imagine essa fita
Envolvida na palma da mão
Várias e várias voltas
Até que não se veja mais
Nenhuma das linhas da mão
Mas como a fita é infinita
Faltaria mãos para envolver essa fita
E mesmo que você me desse a tua mão
Não haveria mão pra tanta fita.

Orgulho do caralho

E quando nos afastamos dos outros por puro orgulho?

Difícil NÃO É fazer isso

É reconhecer isso!

Eu sou um puto orgulhoso

que, às vezes, não há espelho que me aguente

mas já o reconheço

o que considero coisa de valente!

 

Recomeço

O impulso inicial,
A loucura.
A certeza da fé,
O fim natural.
O portal do medo,
Um passo importante.
Objetividade,
Boas perspectivas,
Alegria,
A sensação de estar no lugar certo,
A sombra,
impulsividade,
excessos.
Encontrar a medida certa,
A cura.
Alegria,
Renascimento,
Êxito,
Coragem,
Vitalidade,
Destemor,
Atmosfera de partida.
Desejo de aventura,
União,
Amor,
Intuição,
Potência.
Senso de realidade,
Assumir responsabilidades,
Transformação.
Golpe do destino,
Mudança,
Recomeço.
Exame profundo,
Dilemas,
Provas de paciência,
Beco sem saída.
Clausura,
Recuo,
Achar a si mesmo.
Compreensão,
Firmeza,
Transmutação,
Libertação.
Conclusão.

Paradigmas filosóficos

Um dos paradigmas filosóficos que eu acho mais interessante é o de não haver como saber se aquilo que um pessoa vê é o mesmo que a outra também vê. Mesmo que eu descrevesse detalhadamente a minha visão, empiricamente poderíamos dizer que sim, vemos a mesma coisa, mas o paradigma surge pela impossibilidade da prova. Mesmo que a constituição física dos meus olhos seja semelhante em estrutura dos olhos dos outros, não há como provar que o que eu vejo é o mesmo que você vê.

Isso é fabuloso!

Coesão em harmonia

Se a coesão é a harmonia das palavras
Quais conectivos dos termos de uma frase
Que moldam as orações e formam um período
Formarão parágrafos bem melhores construídos
Se usá-los em harmonia com o pretexto
De expressar o que vos escrevo nestes versos?

Quem, senão eles?
Que se conectam
Ligam preposições
Pronomes, advérbios
E tantas palavras denotativas.

São elementos, meu bem,
para o bem descrever
E além de se fazer entender
Usa-os de forma consciente
E com atenção.

Enquanto as conjunções, que de fato
seriam as adversativas,
Embora, todavia
Os argumentos que tudo contraria
As locuções que, não obstante,
E, apesar disso, sabemos que tudo passaria,
Isto é, em outras palavras,
Sabemos que até a uva passaria…

São palavras que denotam,
entre outras que, afinal,
inclusive e apenas
De qual maneira, senão desta,
Daria com a testa
Num soco da coesão?
Pra garantir, de qualquer jeito,
Um certa harmonia entre a teoria
E aquilo que vem antes da preposição.

Um salto

Apenas um único

salto

na

escuridão

Pode ser

Suficiente

Para

mudar

tudo.

A tua real natureza

Qual era a tua real natureza
Antes dos teus pais nascerem?

 

A civilização ocidental

A civilização ocidental
é uma arma carregada
apontada para a cabeça
do planeta.

O fim da celeuma

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Na pedra, tinha pó. Sujeira.
A pedra, no meio do caminho,
estava mesmo lá.
Numa atitude certeira
meti-lhe o pé!
Pronto! Acabou-se a celeuma!

 

Uma releitura do poema
“No Meio do Caminho
Carlos Drummond de Andrade

Haikais noturnos

Minha casa
sem luz nem um poste
só uma música para iluminar


Quando o sol sai
lá vou eu fingir
uma madrugada


Tudo tão claro
no silêncio da noite
desse inferno


Café escuro
E a lua tão clara
Utah! Get me two!


Acorde cedo e viva feliz
diz aquela propaganda
que fala para algum infeliz


75% da tristeza da noite
está nas Casas Bahia,
que só funciona no outro dia


Assaltar rico
tem uma função social
malandro cuida de distribuir a renda
de forma eficiente e eficaz


“às oito” não é um horário
é um capítulo do relógio


Se dispensassem
a energia consumida à noite
nos reproduziríamos muito mais


Toma um tiro
no meio da noite
e praticamente morre


Haikais noturnos
servem pra que mesmo hein?
não sei mais. Bom dia!

Hexâmetro Datílico

De uma vez por todas
Hexâmetro é métrica poética.
Datilografada num dedo de poesia
A medida escrita nos 50 dias da Ilíada
Numa odisseia que Homero
Em seus quinze mil versos contaria
Na épica poesia greco-latina
Seis medidas um arranjo formaria
Declamando em breves e longas a poesia
Sem átonas ou tônicas como música metrificaria
E tão óbvio quanto um mero quatro-por-quatro
E Stravinsky sabia que de fato
Uma nova divisão silábica-acentual
Usava o pé poético como alicerce fundamental
Sob os escombros de uma guerra escondida
Uma proeza que talvez nem haja a jazida aludida
A joia de Troia a todo apaixonada
Um presente em português ou tradução sem medida
Canta-me a cólera – ó deusa – Funesta de Aquiles Pelida

Quarks de Joyce

Quark tipo Up
Quark tipo Down
Só três quarks
para o Mestre Mark

Red, Green e Blue
Simples cromodinâmica quântica
Aplicada a James Joyce

Somos cosmos

Somos peixinhos no oceano do cosmos!
Não, no fundo, somos menos do que isso,
Somos apenas plânctons no mar etéreo!
Não, no fundo, somos menos do que isso,
Somos apenas uma molécula no Todo!
Não, somos menos do que isso,
Somos um átomo em todo o universo!
Não, somos menos do que isso,
Somos apenas um próton nisso tudo!
Não, somos menos do que isso,
Somos apenas um elétron nisso tudo!
Não, somos menos do que isso,
Somos apenas um quark nisso tudo!
Não, somos apenas ondas neste oceano!
É!
Somos apenas energia mesmo!

Araucária, angústia e folhas

Brota araucária sem angústia
Vence esta ameaça que te faz quedar
Transborda em cachoeira, refloresta
Do ribeiro à foz do rio que parece mar

Desfalha pinha madura!
Germina, pivota que é janeiro
Jaz tanto forro, teto, ripa e amargura
E sê ligeira, mais do que a serra de madeireiro

Alça as copas teus oblíquos braços
Revisita o céu, o imenso candelabro
Medra fundo na consciência do homem
Pois que a ciência quase nada pode
Com aquele que da tua própria pinha come

Dom Pedro… Lumber… Farquhar…
Que diferença faz agora contestar?
Se o que vejo nos campos do alto do Paraná
Não passa de um mero salpicar
de uma floresta inteira que ali deveria estar.

Transmutação

Transmutação
É uma chave seletora
Que sintoniza o canal
Do amor ou do ódio,
Conforme a vontade do espectador

Poesia incendiária

Poesia
é palavra acesa por centelha
Ignição por faísca na forma de sentença
Que transforma uma volátil oração
Explode em verso incendiário
E ilumina, por dentro, qualquer questão

Toda palavra é volátil
E toda poesia é centelha
A sentença é mais do que volátil
É incendiária

A ideia atômica que explode
E se alastra e derrete
Transforma e inflama o verso
Ou se irradia em rima

Mas a dor do estilhaço
Da língua imortal
Que arranca o sujeito
E o tempo verbal
E, junto com ele,
Carrega o fracasso,
O paradigma,
O léxico,
A ideologia,
E a total vergonha gramatical.

Eis que poesia é
gasolina espalhada na calçada
É calor de palavra oxigenada
Embebida em combustível derramado
Que explode na cabeça de fósforo riscado

A Ira

Ira é expectativa não atendida
É verdadeira fúria nas avenidas da vida
É a esperança muito elevada
Que transmuta, numa passada,
O amor em ódio, ou até em porrada!

Ira é expectativa exagerada
Sobre algo que nos foge a alçada
Pois que ao outro jamais se lapida
Pouco se muda, ou até mesmo nada.

A ira está mais para um sinal de alerta
Que pisca âmbar intermitente
E que avisa de um perigo eminente
Que fura o sinal e que causa acidente.

Escrevo porque amo

Escrevo porque amo. Não amo escrever. Escrevo porque amo.
Escrevo porque preciso. Preciso escrever porque amo.
Preciso do amor, não escrever.
Escrevo muito mais quando sou puro ódio.
Por isso escrevo muito mais do que gosto.
Quem sabe um dia não preciso mais escrever.
Ou quem sabe um dia escrevo apenas porque gosto.
Ou quem sabe transformo em puro amor todo esse ódio.

Chegou a hora

Chegou a hora
Da visão macro!
A visão do todo!

Ao contrário
Daquela mais obtusa,
Aquela mais estreita,
Que eternamente espreita.

Chegou a hora!
-Sem quebra-galho-
É pra arrebentar a boca mesmo
E encontrar o curinga
Do baralho!

Chegou a hora!
Porque a hora é essa,
de gritar ao mundo,
Porque você está certo!

Porque agora
é necessário gritar!

A primeira poesia

Esta é minha primeira poesia.
E como a primeira a gente não esquece,
Vou dormir com ela esta noite,
Para ela também não se esquecer de mim.

Eu já estou namoricando ela há uns dois anos,
Mas somente agora é que eu tive coragem de escrevê-la.

Eu quero que ela seja a primeira de muitas…
Mas ela não quer isso não.
Ela quer ser a única!
Ela quer ser exclusiva…
A única poesia.

Eu já até falei que sendo a primeira
Tem um lugar especial no meu coração,
Afinal, o lugar da primeira nenhuma outra pode tomar,
Mas não adiantou.

(a gente até já brigou por isso – de verdade)

Foi quando tentei escrever a primeira poesia
E, de tanto ciúme, ela não me deixou pensar em nada…
E assim foi, até um dia desses…

Mas hoje não! Vou pensar nela, só nela.
E hoje eu vou dormir com ela.
Hoje vou escrever a primeira poesia
E depois, pra ela não se esquecer de mim,
Acho que eu vou escrever uma poesia pra ela.
Só para registrar, entende?

Pois é, houve uma vez que amei outra poesia
Mas ela não ligava muito pra mim não.
Depois que escrevemos alguns versinhos juntos
Ela me abandonou e levou dois versos completos consigo.
Nunca mais os li.

Ouvi dizer que estavam bem.
Tentei procurá-los mas não achei.
Já devem até ter virado livro. Não sei.

Mas hoje é o dia da primeira poesia inteira
E é disso que eu tenho que falar
Até já sei como é que vou começar
É só tomar coragem e começar a contar.

Vou contar até três: um, dois, três e…

Já!