Destaque

A ventura

O presságio
se debruça no espanto
quando solidificam-se
episódios antes implausíveis.

Fora de ordem,
o mirabolante cumpre-se do que decorrer
e fulminante surge do que resultar,
sempre impenitente.

Digno de abandono
o vaticínio é sempre traiçoeiro.
Flácido se cobiçar rigidez,
pedregoso se desejar polidez,
incalculável se quiser numerá-lo,
sempre improvável de acertá-lo.

Entretanto, se,
das peripécias do acaso,
que sempre se avizinham,
o incerto apresentar-se,
e tudo o que se pensava ser mero imprevisto
fincar em nossa existência o seu fenômeno,
sem pudor, como sempre,
gestar atrevido em nossas, então, assombradas biografias,
iluminar-se-á a premissa de um golpe preciso,
da palavra magistral, duma assertiva e bela cartada.

Destaque

1 1 1

Eu sempre vi a vida
de uma forma bastante síncrona.
Desde menino ia na Ordem
com minha avó. Amava.
Tanto ela quanto a coisa do místico,
do oculto, do indisponível naturalmente.
Nem sabia o nome de nada disso.
Nem sabia que estas coisas tinham um.

Eu tenho uma coisa em mim
Que é penoso traduzir
Porque nunca “bate” com a palavra

Mas acho que posso chamar,
então com aspas mesmo,
de “paixão”… que é a música.

Não é paixão, é o ritmo da coisa
Que me pega feito paixão fulminante

Não é amor é o batuque…

Porque amor não vem e vai!

O violão, sim, vem e vai: por causa
de um probleminha que eu tenho
com a minha amiga coragem…

Eu falo da voz, do som, da poesia, da melodia
da alma da parada.

O ritmo é que me mostrou
No meu viver
(e sem que eu pudesse perceber)
Que há mesmo uma espécie
de sincronia em tudo!

Um tipo de ritmo universal
Que pulsa, sozinho, independente.

Hoje eu não duvido mais nem
da sincronicidade do universo…

Hoje eu me sinto mais esperto com essa coisa.
Estou mais atento, mais observador.

Também fico confortável
com quem preferir chamá-la de coincidência.
Porque, pra mim, o que importa é que acontece, simplesmente.

O nome pouco importa, o que importa é que,
sendo amigo da “coincidência”, ela me ensina a ver melhor.
(quiçá pudesse entendê-la antes de outra vida)
Ela ensina-me a ver
ela ensina-me a aprender a ver direito…
Isto é a sincronicidade pra mim.

Por exemplo,
a sincronicidade nos números.

Em diversos estudos, o número UM é “reconhecidamente” sagrado:

UM é o início.

UM é o princípio.

UM remete à criação.

Uno.

Uma vida!

O indivíduo!

One.

Eon!

O indivisível UM!

O DOIS também tem suas “divinas” particularidades,
mas é tão comum que é impossível pensar
teosoficamente sempre sobre ele.

No entanto é mais perceptível quando olhamos para as “dualidades” das coisas:
o céu e a terra,  amor e ódio,
a luz e a escuridão, a verdade e a meia-verdade,
os paradoxos, enfim.

O DOIS também simboliza os extremos, os opostos.
Conforme o ponto de vista, os opostos podem ser considerados uma mesma coisa
ou seja, o DOIS também é o UM.
Quando os extremos possuem a mesma natureza
como o quente e o frio, o ódio e o amor
hermeticamente são considerados a mesma coisa
em suas respectivas “escalas”…
sendo apenas diferentes em graus.

A transmutação é capacidade de sair de um extremo
e ir em direção ao outro, buscando o equilíbrio
bem no meio!

O DOIS nasce do UM.

Um casal surge de DOIS indivíduos,
seres únicos, que quando resolvem,
juntos, fecundam o UM: o filho
ou seja, a vida!

Mas 2 é a terra onde 3 é o céu.

O enxofre, o mercúrio e o sal.

A trindade.

A Trinity de Matrix!
(mulher de Neo)

Precisaria falar mais?

A triangular sabedoria do três.

É o princípio agindo…

Do UM vira casal: DOIS.

Surge o filho – que faz tudo virar 3!

E volta a ser UM: a família.

(sempre passível de expansão – é claro)

Agora imagina o “divino” UM
repetido TRÊS vezes:

1 1 1

O cento e onze é mágico! Esse sim!

Um exemplo de exercício que realizo:

Se eu pego um livro nas mãos
com algum interesse em descobrir algo
que ele pode me oferecer em seu conteúdo

principalmente alguma edição que eu não li ainda.
Abro na página 111, se estiver disponível.

A primeira mensagem – ou a última – nessa página,
quase sempre revela se o autor está em sincronia comigo.

Geralmente a mensagem se mostra acertada para o meu momento.

A primeira ideia ou a última, nessa página.

Depois é que eu busco pelo editora, pelo prefácio, ou mesmo pelo índice,
contracapa, essas outras coisas…

Um teste em tempo real:

Tomei o dicionário Lya Luft, edição de 2003, página 111 (…)

Primeira palavra da página: “Beirada”
Risco? Me pergunto!
Leio então a última palavra da mesma página:
“Bem-criado”

Ou a Lya Luft é “raça” mesmo ou

o bem-criado está na beirada…

Lembrei agora deste meu recente texto
que fala exatamente desta minha sensação:
[Um Salto em 13/07/2017] other-tab

Vamos em frente!

Curiosamente, é a página de “Belzebu” (Diabo).
Dispensa apresentações…
Está exatamente antes da palavra “bem” (no sentido virtude)
Que vem antes de outros “bens”, na mesma página, na seguinte ordem:

“Bem acabado”;
“Bem apessoado”;
“Bem aventurado”;
“Bem-vindo”;
“Bem-avisado”;

Pois é!

O mesmo acontece, pra mim, com o número 55.

O 55 é um espécie de irmão mais novo do 111.

E o mesmo ocorre com o número 89.

Na sequência Fibonacci, a razão mágica é 1,618
E eu já usei Fibonacci no mercado financeiro e é bizarro!
Esse número, multiplicado por 55 dá exatos: 88,99

Para estes dois números eu determinei um maior grau de importância.

Talvez paranóia remanescente dos tempos da bolsa…

Mais um teste em tempo real:

página 666 (já que tem essa!)

A última palavra deste mesmo dicionário:

Vazio, no sentido de “oco”, “vácuo”, “falta de espírito”!

(…)

Eu boto fé, mesmo que muitas vezes
Eu não consiga entender, mas
eu consigo perceber que estão ali.
(mas entendo qualquer um que não “bota fé”)

O que importa é que botando fé podemos prestar atenção!

Quanto mais eu presto atenção aos números, mais me surpreendo.

E ainda acredito no exercício disto,
como se pudéssemos “evoluir” nessa percepção.
Acredito que a sincronicidade dos eventos
é uma questão de percepção.

Já li que as pessoas que passam pelo
processo iniciático desenvolvem
esta maior sensibilidade à “sincronicidade” de Jung.

Mas eu sou mais hermético, enfim.

Entendo ser possível explicar isso
De muitas outras maneiras diferentes
e igualmente sem nenhum fundamento lógico
E entendo que, talvez, jamais possamos explicar nada disso.

A caixa do posto

Daí eu entro no posto
pra pagar o combustível
comprar cigarro
e o que mais viesse

Porque eu não costumo
sair do carro em posto de combustível…
somente quando quero
comprar cigarro

Daí tem duas meninas
atendendo nos caixas
um cliente em cada
e um cabeludinho loiro de oclinhos
com cara de “satisfeito demais” pra aquela hora da manhã
bem no meio de duas pequenas fileiras
entre salgadinhos, chocolates… aquelas coisas de posto,
com uma prancheta nas mãos.
Sorri discretamente pra mim quando eu entro

parei, como de costume, a mais ou menos
um metro e meio atrás do cliente que pagava
na frente da primeira menina no caixa,
o meu colírio matinal(!)
que acabo aplicando quando dou a
sorte de entrar naquele posto
daquela região da cidade
que, aliás, sempre o faço com 100% da minha imperial discrição…

Uma tremenda gata!

Uma boneca perfeita!

O rapazinho espera uns 55 segundos
me fita, me analisa esperando descobrir
o que eu quero ali

(esperto)

e se aproxima como quem espera na outra fila,
da outra menina do caixa, que sequer vi quem era,
por causa da menina da primeira,
e em 3 segundo me diz:
— Bom dia! O senhor é fumante?

decerto, ele ficou me cheirando à distância
pra saber se sou fumante
fdp

(rs)

Minha cabeça girou há cem metros por segundo
(parecia 3oo milhões de quilômetros por hora)
tentado vasculhar a mente em busca de saber o que um rapaz poderia querer comigo naquela hora da manhã, num posto de combustível, justamente quando estava admirando a, visivelmente linda, menina do primeiro caixa…
fdp

Tá!

Flagrei o assunto e perguntei-lhe, como quem não queria saber sobre o tema.

—Sim, sou fumante. Bom dia! Por que?

Ele deveria saber que se sou fumante, de cara, o tratamento comigo deveria ser especial.
O mais profissional possível que a Camel pudesse preparar pra pôr ali,
naquela do hora da manhã,
pra me fazer propaganda de cigarros…

IMEDIATAMENTE eu fiquei TOTALMENTE PUTO com aquilo!

Na verdade só de olhar na camisa dele e ver a logo da Camel eu fiquei com uma raiva tão grande de ser fumante (rs) que na hora eu achei que ia explodir ali mesmo, e meter a boca no coitado, na frente de mais umas quatro pessoas que estavam dentro daquele lugar.

Porra…. dei um bom dia como que diz…. sa – ca – na – gem – né cara??

Mas eu pensei na hora: pior do que ser fumante ali é fazer o que esse cara faz…
porra estimular esse mercado de merda… esse sim tem tudo pra se sentir um lixo…
guri com aquela cara de esperto poderia estar produzindo tanta coisa boa, pensei,
mas fui gentil com ele!

Enquanto falava ficava pensando como pode tantas pessoas entrarem no jogo do mercado, do salário, do reconhecimento, da expectativa de ser promovido, do status quo que se adquire ao trabalhar numa empresa estrangeira e tal, essa palhaçada toda…

Mas sabe o que fiz?

Depois que pedi pelo meu cigarro reconhecidamente desgraçado,
pedi,
pra boneca,
um Camel Azul (celeste)
conforme a sugestão dele,
com voz de contragosto,
com voz de dependente químico.

fdp

fdp^20

porquanto seria,
segundo ele, a “edição” que mais se assemelharia ao meu bom e velho
maldito LookStrike preto com azul.

Ele me agradeceu depois que paguei por tudo
combustível e mais duas carteiras de cigarro
(carregando mais 40 pregos no meu caixão –
em homenagem talvez aos meus 40 anos atuais)
(na minha caixa preferida)
daquela região da cidade

Quando me virei para sair
olhei pra ele e disse:
— Cláudio, né?

(escrito pequeno – do outro lado da camisa dele)

Ele deu um passo pra trás, eu eu:

— Você tem a NET em casa, amigo?

Ele estalou os olhos, sorriu e sorrindo disse,
depois de pensar por dois segundos:

—Tenho!

Como quem diz, é óbvio!

E eu tasquei-lhe:

— Então um dia dê uma olhada nos filmes que tem lá naquele “NOW” da NET…

— porque isso não tem na internet, eu disse.

— E procure lá um filme que eu acho que você iria gostar de ver…

Esperei um segundo para ele reagir,
e ele reagiu balançando a cabeça afirmativamente…
Ainda sorrindo.

Continuei;

— Procure lá o filme,
disse-o bem assim:
—LO-TE-RI-A-DO-NAS-CI-MEN-TO.

— acho que é esse o nome, disse-lhe fingindo não ter certeza;

— e assista esse filme!
— eu acho que você vai gostar…
— valeu meu querido! Bom dia!

E saí pela porta do posto
pensando que tinha acabado de gerar a possibilidade
de alguém mudar de caminho pelo estímulo de um desconhecido.

 

 

Nota: um dos temas desse filme é um estudo sobre o impacto negativo que o nosso trabalho pode ter nas outras pessoas e do qual muitas vezes não nos damos conta.

 

 

Quando agradeci ao frentista e entrei no carro
duvidei que ele acataria minha sugestão.

Mas fiquei satisfeito comigo mesmo!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Palhaço que não ri, chora

Tenho escrito mais…
Mas tem tanto de mim no que escrevo
que não preciso mesmo
evidenciar-me para além disso

eu estou totalmente escrito aqui…
estou inscrito em carne e inscrito em osso,
escrito em alma e descrito em desgosto;
com mais este drama agora –
que aliás desgosto,
quase obrigado e tantas vezes
a pleno contragosto…

Mas, às vezes,
eu até que gosto do gosto e engulo…
Sobretudo quando o meu
palhaço interno aparece da coxia
esperando a sua deixa
e me faz dar um gargalhada daquelas
que até em outra dimensão alguém ouviria

(como essa!)

Este escrito não é poesia é
a própria palhaçada que,
de outra forma, jamais
alguém ousaria dar um minuto.

No fundo eu não sou um grande boçal
Eu só não queria estar tão inscrito
porque não aparece o meu palhaço
divino e celestial
Apenas essa merda grotesca,
chata e metida a visceral

Mas que mal, afinal?
Palhaço que não ri
ou só chora
ou chora de tanto rir.

Free will

A liberdade
tem um preço:
o livre-arbítrio.
E este tem o seu:
a responsabilidade de fazer
a escolha mais acertada.

 

Em frente

Nem tudo aquilo
o que se enfrenta
se pode mudar,
mas absolutamente
nada muda
até que se enfrente.


 

Ajuizamento

Uma balança
pesa seu coração
De um lado
E do outro uma pena
Pesa, julga, sabe

Toma nota
Do peso
Pesa, julga, sabe

O bem nascido nasce
Morto
E morto renasce

Olha para o céu
E ele não está mais azul
Não há nada sobre a sua cabeça

A escuridão ascende
E a luz se apaga
Não há nada

Há o peso,
O julgamento
E o saber
Que se sabe

Não há nada
Não há tempo
Vai-se o peso
Vai-se o julgamento
Vai-se o saber

49 dias depois
Nasce, cresce
por meses e esquece
Não volta e jamais
lembrará

Há o peso
Há o julgamento
E mais nada

Pirâmide dos déspotas

TIRANOS
SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM
EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS
QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM
EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE
SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM EM TIRANOS QUE SE APOIAM ENTRE SI.

Cura-curitiboca

Arthur Virmond de Lacerda Neto

(Pronuncie “curitibóca” e não “curitibôca”.).

5.V.2014. CURA-CURITIBOCA .Lanço, hoje a campanha cura-curitiboca. Em Cascavel, há uma receita para curar o mau humor dos curitibanos; aplica-se o remédio por meia hora.Qual é, não digo, mas quem mora lá entendeu a pilhéria. Há exceções aos curitibanos-curitibocas.
Primeiro exercício: fale com um estranho hoje. Cumprimente alguém: diga-lhe bom dia. Não interessa se não costuma conversar com ele. É exatamente nisto que radica a eficácia da terapia: interagir. Encoraje-se! Não se preocupe com o que os outros vão dizer ou pensar de você! Vá lá! Força, curitibano!

 CURA-CURITIBOCA, parte 2. Reflexão de hoje, para curar a insociabilidade dos curitibanos. O ser humano é social e sociável; vive em sociedade, convive com pessoas. É ser que se comunica, que fala, que pode falar; que ouve. Curitibano-curitiboca, exerça as suas faculdades humanas: seja sociável, fale, comunique-se, ouça, queira ser sociável, queira interagir, queira falar, queira…

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Ah! Amarelo, seu danado!

Ah! Amarelo seu danado!
Não se finja de canário
Não se faça de rouxinol
Deve estar é apaixonado
Ou com inveja do sol!

Ah! Amarelo seu danado!
Deve estar enfeitiçado
Mais fisgado que anzol
Deve ser recém-casado
Ou mais enrolado
Que um azarado caracol!

Ah! Amarelo seu danado!
Vem cantar aqui do lado
Deve estar desafinado
Ou perdeu-se no bemol
Não se faça de dourado
Não tem poesia de fracassado
Que lá sustente sol com dó!

Ah! Amarelo seu danado!
Fazendo-se de laranja no gramado
Não entende que o pecado
Não passa de um recado deixado no lençol.

Os Votos

“Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a lhe desejar.”

por Sérgio Jockymann
Folha da Tarde Porto Alegre
30 de dezembro 1978

De Camões à McKeena

Tô morando escondido
Debaixo de pilhas descarregadas
de livros e partituras,
gramáticas e literaturas.

Tenho umas aulas de cervantes
e solfejo e fico riscando círculos das quintas
todas as quartas e sábados.

Aos domingos pulamos as quadras
de Nostradamus em meio a
montes de editais que acumulamos

Na Cabala ou no Caibalion,
Entra escala e sai semitom
Quem fala são os diálogos de Camus
E, na mesinha, uma garrafa (quase parecendo xixi)
de vinho bordô vagabundo
Na falta de um bem seco Sauvignon

Me dá vontade de fazer como
Mckenna e sair caçando
cogumelos no campo, só pra ver

Aliás, adoro a teoria dele,
de que a evolução da nossa consciência
Só veio mesmo por causa das plantas.

O salto só foi possível
por causa da Psilocibina:
minha linda!

E o acidente que criou o LSD…
daria belíssima substituta
Mas ninguém vai permitir esse negócio
de expansão da mente, já pensou?

Sente um bem feito Daime
ou vai na Ayahuasca da Amazônia
pra você ver o tamanho da pedrada.

E se estiver preparado e
a cobra aparecer,
não tem verso que explique
se você perceber que és
mesmo do tamanho do universo.

Mas esse é tema
pra um outro verso.

Pega a tua teoria e enfia

Você tem uma teoria?
Pega tua teoria
e vê que a tua pergunta
já foi feita.

Põe no Google
em todos os idiomas
Lê que, alguma pesquisa,
já foi feita.

Junta teorias semelhantes
E põe-nas à primeira prova
Comparando-as entre si.

Faz conexões.
Lê estudos.
Lê teses.
Vai na bibliografia que
já foi feita.

Soma tudo, divide,
subtrai e multiplica.

Quando estiver
bem por dentro da tua teoria
Parte para os escritos antigos
Parte para trás, no tempo
E verás que tua teoria
já foi feita.

Vai fundo,
soma tudo o que estiver escrito
Vai chegar em Roma
Vai chegar na Grécia
Vai chegar no Egito

Quando perceber
Que a sua teoria
“Termina” na biblioteca de Alexandria
Nota que estás no caminho certo.

Mas vai mais longe,
Segue adiante,
Vai pro oriente.
O que não está na China, na Índia,
ou semelhante
não estará no ocidente.

Vai mais longe,
Vai pra onde nunca esteve antes
Vai pra antes das pirâmides
Vai para antes dos Atlantes.

E quando as estrelas começarem a salpicar na tua frente
Vai lembrar que tudo sempre esteve ali, bem na sua mente.

Combinações rimânticas!

Eu rimo
Poesia com o que dá
E, do que der, ela se fará.

Lembram das rimas impacientes que saltitam
pulando pra lá e pra cá
Subindo e descendo morros,
assim como que tonteando sobre vales e cumes, aos montes?

E que rimam a movimentos constantes,
e não parecem jamais que estão parados?

Belos sonetos rebuscados,
Quase que abençoados
Cheios de colóquios sábios e quentes
E, no entanto,
bastantes bem apresentados,
meramente

A rima é tosca
Mas dá som
E soa sóbrio
no falar

Não tem melhor pedágio
nem melhor atalho pra calhar
como esse
Que rime, à solta,
mesmo sobre um verbo de articulado estreito,

Pois que não dói nada no peito,
E aliás,
Não há nada mais direito
Que rimar
amor com peito.

Deixa vir…

Finalmente,
um ponto final.
depois de tanto prorroga,
protela, suspende e cancela
Um ponto no fim
da demora!

Acabou
e chegou a hora de entrar
no primeiro lugar
e dar com o pé na prateleira
e fazer tudo voar.

Algo cessa
quando algo inicia
e também principia
quando outro acaba.

É tão claro e evidente
mas, nem por isso, é sempre
tão óbvio.

Deixa vir, deixa vir…
que da minha esperança
entendo eu

Deixa vir, deixa vir…
que minha confiança
nunca tem fim.

Intuição jamais
se engana.

Deixa vir que eu sei
que um novo começo
traz nova estrada.
Mas eu não tenho medo de nada!

Deixa vir
que eu sei
que tem pedras
pelo chão; Mas eu
não tenho medo de nada!

Deixa vir
que só eu sei
onde eu posso chegar!

É o desafio que vale a pena!

Hoje não, amanhã talvez

Tem gente fazendo coisas tão belas
E eu não passo de uma suja remela
Aglomerada no bordo da conjuntiva

Tem gente falando coisa tão educativa
E eu mal consigo usar um vocativo
E chamar alguém pela janela

Os moços usando palavras decorativas
E eu mal encontro uma frase suja ou corrosiva
Ou palavra engraçada tipo pinguela, biela ou tramela

As moças falando em flores, odores e sabores
E eu mal consigo dizer puta merda, que fedor!

Maturidade emocional

Nossas certezas
produzem todo o mal que vemos
(e o mal que somos)
Nossas certezas
nos fodem e mal sabemos disso;

Não abrimos mão,
De jeito nenhum;
e o pior é que
não é nossa culpa.
A culpa é de todos ao nosso redor.

Mas eles vomitam o que comeram, não é?
Vendem o que compraram…
Não os culpemos!
Afinal, nem fazemos ideia do que não sabemos…

Estamos sempre na fiúza da nossa genialidade

Somos sapientes;

Sabemos de tudo;

Pior que adolescentes, pois estes realmente não viveram a vida ainda;

Nem imaginamos que nossas referências são assim como nós;

Nem imaginamos que todos (inclusive nós mesmos) podemos estar TODOS enganados;

Mas a pergunta é: quando foi a última vez que mudamos nosso ponto de vista sobre alguma coisa?

Se tiver que pensar demais…

bem-vindo(a)!

Todos os eguinhos ao nosso redor são de cristal;
Sensíveis como cata-ventos na ventania
Tudo lhes atinge!

Maturidade emocional
não tem nada a ver com
idade cronológica.

Se precisa que o outro “esteja sorrindo” para você sorrir…

Se precisa que o outro lhe “dê bom-dia”, para você dar bom-dia…

Se precisa que o outro “lhe acolha” para você acolher…

Se precisa que o outro “faça” para você fazer…

Se “precisa” que o outro seja o que você quer…

Precisa observar-se mais.

Precisamos nos observar mais!

Colar de palavras preciosas

Eu deveria passar o dia
Falando mais com as pedras.
Eu deveria passar o dia
cantando mais pra elas.

Eu deveria invocar a solidão,
Pois estou punhado de falar.

Eu deveria
usar mais as minhas
preciosas palavras
com pedras mais valiosas.

Seriam preciosas
as pedras às quais falo agora?

Vejamos,

as cores não são bem definidas
e são claras demais para
se dar algum valor.
E sei que não são diamantes!

Sei que podem
possuir rachaduras
mas não às vejo a olho nu.

São lapidadas que eu sei.
Mas seriam bem feitas?
Talvez muito rasas,
talvez muito fundas,
talvez muita estreitas.

E o quilate?
Uma pedra de dois quilates
valeria mesmo mais
que duas pedras de um?

Talvez eu seja demais exigente
Talvez esteja colocando
gemas demais na mesma cesta.
Talvez meu gosto pessoal seja um saco,
verdadeiramente…
Mas gosto não se discute!

E você,
o que leva em consideração
ao avaliar uma palavra preciosa?

Metáforas sem fim

Eu vou dizer um negócio
Sem justificar, apenas para clarear

Antes de mais nada…

Eu escrevo certas coisas
apenas para que elas
não venham a cair
no esquecimento…

Muitas vezes
escrevo de forma inversa
daquela que penso.

Eu vejo isso o tempo todo.

Mas eu as deixo registradas mesmo assim
apenas para não caírem no esquecimento.

Isso é muito bom pra mim,
no entanto,
pode ser que, às vezes,
Seja bom só pra mim!

Vamos chamar de metáforas!
(mesmo que muitas vezes
sejam apenas antíteses).

Pode haver apenas cinismo,
Mas também pode haver cinismo
fundido com metáforas!
Muitas e muitas vezes não haverá apenas cinismo,
Mas muitas vezes haverá metáforas!

Pode haver apenas sarcasmo,
Pode haver sarcasmo fundido com metáforas!
Muitas vezes não haverá apenas sarcasmo,
(como diz minha filha: nem todo mundo entende sarcasmo!)
Mas muitas vezes haverá metáforas!

De qualquer forma,
Não assine nada do que escrevo.
Pois eu não sei mais escrever sem usar metáforas!

Fogo no gelo!

O fogo se move
sempre para cima
mesmo quando viramos
a chama para baixo,
ela sempre sobe,
não pode descer.

O fogo é um esforço para alcançar o ponto mais alto,
o ponto ômega, a apoteose.
quando se observa uma chama,
pode-se vê-la apenas por alguns momentos,
por uma fração de segundos,
e depois ela desaparece.
Assim como nós,
quanto mais alto vamos,
mais desaparecemos…

Quanto mais descemos,
mais sólidos e duros como pedras nos tornamos.
Observemos a água: quanto mais ela desce, mais esfria,
até começar a congelar; torna-se gelo, como uma pedra.
Todo o movimento cessa — e fica lá estática como que morta.

Quando a água congela,
temos que derretê-la com fogo para
que o movimento recomece.
Temos de aquecê-la para
que atinja os cem graus
e então comece
a mover-se para cima novamente.

Existem três estágios:
nenhum movimento,
que acontece quando se está congelado;
o movimento descendente,
quando se é como a água;
e o terceiro, quando se evapora:
o movimento ascendente!
Vivemos nos três estágios
simultaneamente.

Partes de nós são como o fogo,
partes como a água
e há partes bem congeladas.

Sempre existe em nós
uma parte se movendo para cima,
E às vezes sentimos como
se fosse puxada para baixo —
essa é a angústia.

Sabemos que
algumas coisas em nós
caminham para cima, para o alto,
e nos sentimos como pássaros;
e parece que podemos mesmo voar,
mas apenas por alguns momentos;
e mesmo nesses momentos
a maior parte de nós
está pendente como uma pedra.

É preciso apaixonar-se para se mover,
É preciso atiçar o fogo para ascender;
e mesmo que não estejamos
“voando nas alturas”
pelo menos
não estaremos nos movendo para baixo.
E mesmo que muitas vezes estejamos
nos movendo para baixo,
ainda é melhor do que estar congelado
como uma pedra!

Pazes

Muitas vezes temos que aturar
tanto meia-roda na vida;
por motivos diversos…

Parece demorado se lembrar
das pessoas que nos afastamos
por escolha, por raiva
ou por esperar demais delas,
enfim…

Temos que nos religar
às pessoas que valem mais.

Mas é assim,
precisamos ver o escuro
-bem escuro- primeiro
para que então haja contraste com a luz!
Então surge a vontade de dizer basta:
vamos ao que interessa,
vamos ao que importa
de verdade.

Imprevistos

Atrás, vem o que já foi
E vem o que será
agora.

Depois de agora
vem o que foi antes
e antes foi o que será
agora.

Ciência e Religião

Toda religião é muleta
Pra quem anda manco.
Toda ciência é manca
Pra quem não encontra
Uma.

Uma,
sem provar nada,
oferece tudo,
Enquanto a outra
nega tudo o que
não pode provar!

Opostos
que se repelem
E formam crentes
em seus extremos
a cada dia,
a seu modo.

A primeira afasta
pelo exame
do que não prova.
E a segunda elimina
a chance do incerto
em se tornar uma.

Tim-tim

Uma taça não faz tim-tim
a não ser
com a própria garrafa
que lhe serve

no tim-tim que estala
apenas um único sorriso
sozinho.
garrafa não sorri
sorri apenas
quem vende a garrafa

Ao sorver dessa taça
daqui a pouco sorri
enlouquece esquecendo
que uma taça
não celebra nada
não preenche nada
exceto a solidão
da companhia
de uma garrafa

duas taças
é bom sinal
há conquista
aquele tipo de celebração
que só se conjuga
entre duas taças.
enquanto cheias
se amam
é garantia de união
de preenchimento
onde há duas taças
não há solidão

já três taças
configura plena celebração
é muito bom sinal
é entreunião
é muitos
é todos

quatro taças
é quase o mesmo
que duas
é o tipo de celebração
que se conjuga
de duas em duas
o dobro de duas
é super celebração

mais do isto é festa
é comunidade
sem nenhum tim-tim
várias taças cheias
que apenas preenchem
vazios
na frente
das crianças o que é
pior do que a solidão
de beber com uma garrafa
que agora também
deve estar
vazia.

Então quer ser um escritor?

poemas rápidos e moderninhos

é fácil
parecer moderninho
quando se é um completo idiota;

eu sei que escrevendo poesia
estou pondo
pra fora um monte
de lixo assombroso
mas não é tão
medonho quanto o que vejo
dentro de revistas de consultório

eu sempre fui
honesto comigo mesmo
desde pequeno
evitei fingir que sou
uma coisa que não sou

é um fracasso duplo
o da vida e o da poesia
quando acerta num, erra noutro

meu nome pode ser este
pode ser qualquer outro
pouco importa

toda torcida é feita de gente morta
que pede por um vencedor
esperando trazê-los de volta
para a vida,

mas não é tão simples assim

Como a poesia está morta
eu devia
estar enterrado também
quebrar minha caneta
parar de me enganar
com poemas grosseiros
jogar todo papel pela janela
e sair por aquela porta

Porque eu não passo
de um completo idiota
fazendo
poeminha rápido
e moderninho
sobre a minha própria derrota

 

Uma releitura do poema
“uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos
Charles Bukowski

Eu mantenho um diário

Eu mantenho um diário
Que contém quase toda a história da minha vida
Tudo o que eu já vi, passei, ri, pensei
Ouvi por aí ou me disseram, está escrito lá.

E neste diário tenho regras que sigo
E uma delas eu vou quebrar agora:
É a regra de nunca falar sobre a existência dele.
E está quebrada!

Outra regra que sigo
É a de nunca mencionar onde ele está
Ou quando comecei a escrevê-lo.
Mas estas regras eu não pretendo quebrar.
Não posso sequer revelar outras regras,
pois só esta regra que eu quebrei
já pode me trazer muitos problemas.
Afinal, quem quer conviver com alguém que quase nada esquece?

No entanto, quando eu partir,
Quero que leiam meu diário para os presentes.
Quero que todos tenham a lembrança das suas participações na minha vida,
e das minhas nas suas, boas ou más.
Porque tudo está lá, inesquecivelmente lá.

Se por acaso, você esquecer do que me disser
Lembre-se de que eu tenho tudo escrito.
E você deveria fazer o mesmo, porque, afinal,
você não vai querer deixar as suas lembranças
sob a responsabilidade de uma memória feita para esquecer.

Se fosse para eu mostrar,
E rasgasse uma folha do meu diário
que contém memórias de mais de vinte e cinco anos,
qualquer um de nós iria manter o seu próprio diário.

Na capa do meu diário está escrito:

“Para esquecer de um dia só é preciso outro”

Moeda rara

O que está no alto é como o que está embaixo
O que está embaixo é como o que está no alto

Uma moeda rara, mesmo extraviada,
não perde o seu valor.
E, até que seja encontrada, seja caída ao chão
ou em similar condição, vale até mais.

Haverão de pisá-la os mais descuidados
Ou de ignorá-la os mais imprudentes.
Poderão tomá-la às mãos os mais otimistas
Mas somente saberão o seu valor
Aqueles mais conscientes.

Em qualquer bolso
Mantém o seu valor
Não precisa ser do linho
Pode até conter furos
Onde quer que esteja
No chão ou nas mãos
Tem o mesmo valor
É a sua singularidade que a torna preciosa.

Aqueles que tiverem grandiosidade
E olhos bem treinados
poderão dar-lhe o devido valor.
Mas, de qualquer forma,
Ela continuará sempre sendo rara.

Preso entre o gado

Da força que me tem um brado
Lança fogo com feroz recado
Ferindo qualquer desavisado
Que seja ciente ou alienado

Que se perturbe a paz de qualquer um
Que esteja em plena e total normose
Para que saia do mundo comum
Despertando de sua profunda hipnose

Mas não!
Permanecerá preso entre o gado
Pois que rebanho que não está fechado
Perdeu, não é meu, ou foi roubado

Percebes a porteira entreaberta
E foge do que estás cercado
Houve o grito de alerta
E grita, pois que faz certo
Mas antes de sair
Deixa o portão entreaberto
Pois não se sabe quem é próximo
A ter seus olhos abertos

A Arte da Decisão!

Arte é decisão!
Desde a escolha do material à técnica utilizada,
Desde a escolha do suporte ao instrumento da expressão.
É tudo escolha!

O resultado é desconhecido,
A pretensão é requisito
A pretensão gera um impulso
Que, normalmente,
É atendido pela decisão.

Da escolha de por onde começar,
À escolha de quando parar
É decisão do artista!

As palavras da poesia…
As cores da pintura…
O tom da melodia…
A mensagem do poema…
As formas da escultura…
O enquadramento da fotografia…
É tudo decisão do artista!

A beleza da arte está
Além dos recursos,
Além das técnicas,
Além de onde se chega,
Além do que nos causa,
Está no momento exato
Em que o artista diz:
-pronto, terminei!

A arte toma sua forma
E está pronta para ser apresentada
Tudo o que foi decidido está ali, acabado.
Todas as decisões foram tomadas.
Por isso possuem beleza.

Vale para qualquer arte
Enxergar o momento
Em que o artista diz:
-pronto, acabei!

Jamais não voltarei!

Poesia, poesia
Que maldita querida e paixão minha
Tão só fiquei, estou – parti – chorei, fiquei, voltei, chorei de novo aqui
Não só lamentei e sofri como corro, corro e voltei correndo, mas agora chega!
Chega dessa palhaçada! Atordoada
Te deixei
Mas voltei e nenhuma vez tornarei a deixá-la
Prometo porque não voltarei
a deixá-la
Nunca voltarei – nunca mais
a deixá-la
Nunca mais
Vou deixá-la
Jamais! Não voltarei!
Vou deixá-la!
Não voltarei!
Jamais não vou voltar!
Não vou deixá-la!
Não, vou deixá-la!
Não vou!
Não, vou!
Não!
Vou!

Volúpia

Ela nua de vitalidade
Apenas de cabelos ondulados
Lasciva, vestida de coragem
Beija em minha ausência
Em total paixão selvagem
Ensopada de desejos
Sonhos e vontades.

Em excessiva e plena intensidade
Abraça sem qualquer formalidade
Destemida toma parte da orgia
Como quem doma fera
Apaixonada e atrevida.

As mãos na escuridão do instinto
Tocam contornos sufocantes
São capazes de correr qualquer risco
Sentem lábios frescos e molhados
Repletos de vaidades,
Intimidades e brilhantes.

Se entregam de corpo em cansaço
Ao fim da busca de pureza e paz
Os braços tomam formas de lótus
Que adormecem em brisa vivaz.

Em corpo fértil de água doce
Corre límpido sorriso matinal
Acordam como em flores sol dançante
Na estação lápis-lazúli de cristal.

Linha

I

Tem um coisa que eu quero contar,
Que eu não sei bem como é que eu vou dizer.
Só peço que tenha um pouco de paciência comigo.
Porque se eu tiver que ficar dando voltas,
Indo e vindo, parando e voltando
até que eu consiga completar a ideia
E te contar o que vem na minha cabeça.

Porque essa coisa também fica dando voltas,
indo e vindo, parando e voltando
Sem a ideia nunca se completar.
Mas eu te peço paciência porque
Eu quero muito te contar.

Pense num círculo…
Pense numa coisa infinita…
Pense em alguma coisa que não tem começo,
Mas que também nunca termina.

Pense num trem!
Não, pense numa linha de trem!
Uma linha bem descrita
Que parece infinita,
A linha que vai é a mesma linha que vem.
Uma linha sem direção
Uma linha que passa por todo lugar
Mas não leva a lugar nenhum
Não existe estação
O trem apita e não avisa
A linha não existe, mas permanece infinita
Meu coração palpita
Parece que meu cérebro frita
Como se fosse a linha
Da minha própria mão
Que pula de uma pra outra
Sem destino, sem parada e sem estação.

Peço um pouco mais de paciência
Porque eu sei que esse negócio de linha
Não leva a lugar nenhum

Então faz assim:
Imagine uma fita
Mas uma fita que também é infinita
E apesar de infinita,
Tanto pra frente quanto pra trás
Assim como era a linha,
Essa fita agora tem uma borda,
Uma borda que de alguma forma
Limita a fita em alguma direção!
Agora imagine essa fita
Envolvida na palma da mão
Várias e várias voltas
Até que não se veja mais
Nenhuma das linhas da mão
Mas como a fita é infinita
Faltaria mãos para envolver essa fita
E mesmo que você me desse a tua mão
Não haveria mão pra tanta fita.

Orgulho do caralho

E quando nos afastamos dos outros por puro orgulho?

Difícil NÃO É fazer isso

É reconhecer isso!

Eu sou um puto orgulhoso

que, às vezes, não há espelho que me aguente

mas já o reconheço

o que considero coisa de valente!

 

Recomeço

O impulso inicial,
A loucura.
A certeza da fé,
O fim natural.
O portal do medo,
Um passo importante.
Objetividade,
Boas perspectivas,
Alegria,
A sensação de estar no lugar certo,
A sombra,
impulsividade,
excessos.
Encontrar a medida certa,
A cura.
Alegria,
Renascimento,
Êxito,
Coragem,
Vitalidade,
Destemor,
Atmosfera de partida.
Desejo de aventura,
União,
Amor,
Intuição,
Potência.
Senso de realidade,
Assumir responsabilidades,
Transformação.
Golpe do destino,
Mudança,
Recomeço.
Exame profundo,
Dilemas,
Provas de paciência,
Beco sem saída.
Clausura,
Recuo,
Achar a si mesmo.
Compreensão,
Firmeza,
Transmutação,
Libertação.
Conclusão.

Paradigmas filosóficos

Um dos paradigmas filosóficos que eu acho mais interessante é o de não haver como saber se aquilo que um pessoa vê é o mesmo que a outra também vê. Mesmo que eu descrevesse detalhadamente a minha visão, empiricamente poderíamos dizer que sim, vemos a mesma coisa, mas o paradigma surge pela impossibilidade da prova. Mesmo que a constituição física dos meus olhos seja semelhante em estrutura dos olhos dos outros, não há como provar que o que eu vejo é o mesmo que você vê.

Isso é fabuloso!

Coesão em harmonia

Se a coesão é a harmonia das palavras
Quais conectivos dos termos de uma frase
Que moldam as orações e formam um período
Formarão parágrafos bem melhores construídos
Se usá-los em harmonia com o pretexto
De expressar o que vos escrevo nestes versos?

Quem, senão eles?
Que se conectam
Ligam preposições
Pronomes, advérbios
E tantas palavras denotativas.

São elementos, meu bem,
para o bem descrever
E além de se fazer entender
Usa-os de forma consciente
E com atenção.

Enquanto as conjunções, que de fato
seriam as adversativas,
Embora, todavia
Os argumentos que tudo contraria
As locuções que, não obstante,
E, apesar disso, sabemos que tudo passaria,
Isto é, em outras palavras,
Sabemos que até a uva passaria…

São palavras que denotam,
entre outras que, afinal,
inclusive e apenas
De qual maneira, senão desta,
Daria com a testa
Num soco da coesão?
Pra garantir, de qualquer jeito,
Um certa harmonia entre a teoria
E aquilo que vem antes da preposição.

A civilização ocidental

A civilização ocidental
é uma arma carregada
apontada para a cabeça
do planeta.

O fim da celeuma

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Na pedra, tinha pó. Sujeira.
A pedra, no meio do caminho,
estava mesmo lá.
Numa atitude certeira
meti-lhe o pé!
Pronto! Acabou-se a celeuma!

 

Uma releitura do poema
“No Meio do Caminho
Carlos Drummond de Andrade

Haikais noturnos

Minha casa
sem luz nem um poste
só uma música para iluminar


Quando o sol sai
lá vou eu fingir
uma madrugada


Tudo tão claro
no silêncio da noite
desse inferno


Café escuro
E a lua tão clara
Utah! Get me two!


Acorde cedo e viva feliz
diz aquela propaganda
que fala para algum infeliz


75% da tristeza da noite
está nas Casas Bahia,
que só funciona no outro dia


Assaltar rico
tem uma função social
malandro cuida de distribuir a renda
de forma eficiente e eficaz


“às oito” não é um horário
é um capítulo do relógio


Se dispensassem
a energia consumida à noite
nos reproduziríamos muito mais


Toma um tiro
no meio da noite
e praticamente morre


Haikais noturnos
servem pra que mesmo hein?
não sei mais. Bom dia!

Hexâmetro Datílico

De uma vez por todas
Hexâmetro é métrica poética.
Datilografada num dedo de poesia
A medida escrita nos 50 dias da Ilíada
Numa odisseia que Homero
Em seus quinze mil versos contaria
Na épica poesia greco-latina
Seis medidas um arranjo formaria
Declamando em breves e longas a poesia
Sem átonas ou tônicas como música metrificaria
E tão óbvio quanto um mero quatro-por-quatro
E Stravinsky sabia que de fato
Uma nova divisão silábica-acentual
Usava o pé poético como alicerce fundamental
Sob os escombros de uma guerra escondida
Uma proeza que talvez nem haja a jazida aludida
A joia de Troia a todo apaixonada
Um presente em português ou tradução sem medida
Canta-me a cólera – ó deusa – Funesta de Aquiles Pelida

Quarks de Joyce

Quark tipo Up
Quark tipo Down
Só três quarks
para o Mestre Mark

Red, Green e Blue
Simples cromodinâmica quântica
Aplicada a James Joyce

Somos cosmos

Somos peixinhos no oceano do cosmos!
Não, no fundo, somos menos do que isso,
Somos apenas plânctons no mar etéreo!
Não, no fundo, somos menos do que isso,
Somos apenas uma molécula no Todo!
Não, somos menos do que isso,
Somos um átomo em todo o universo!
Não, somos menos do que isso,
Somos apenas um próton nisso tudo!
Não, somos menos do que isso,
Somos apenas um elétron nisso tudo!
Não, somos menos do que isso,
Somos apenas um quark nisso tudo!
Não, somos apenas ondas neste oceano!
É!
Somos apenas energia mesmo!

Araucária, angústia e folhas

Brota araucária sem angústia
Vence esta ameaça que te faz quedar
Transborda em cachoeira, refloresta
Do ribeiro à foz do rio que parece mar

Desfalha pinha madura!
Germina, pivota que é janeiro
Jaz tanto forro, teto, ripa e amargura
E sê ligeira, mais do que a serra de madeireiro

Alça as copas teus oblíquos braços
Revisita o céu, o imenso candelabro
Medra fundo na consciência do homem
Pois que a ciência quase nada pode
Com aquele que da tua própria pinha come

Dom Pedro… Lumber… Farquhar…
Que diferença faz agora contestar?
Se o que vejo nos campos do alto do Paraná
Não passa de um mero salpicar
de uma floresta inteira que ali deveria estar.

Transmutação

Transmutação
É uma chave seletora
Que sintoniza o canal
Do amor ou do ódio,
Conforme a vontade do espectador

Poesia incendiária

Poesia
é palavra acesa por centelha
Ignição por faísca na forma de sentença
Que transforma uma volátil oração
Explode em verso incendiário
E ilumina, por dentro, qualquer questão

Toda palavra é volátil
E toda poesia é centelha
A sentença é mais do que volátil
É incendiária

A ideia atômica que explode
E se alastra e derrete
Transforma e inflama o verso
Ou se irradia em rima

Mas a dor do estilhaço
Da língua imortal
Que arranca o sujeito
E o tempo verbal
E, junto com ele,
Carrega o fracasso,
O paradigma,
O léxico,
A ideologia,
E a total vergonha gramatical.

Eis que poesia é
gasolina espalhada na calçada
É calor de palavra oxigenada
Embebida em combustível derramado
Que explode na cabeça de fósforo riscado

A Ira

Ira é expectativa não atendida
É verdadeira fúria nas avenidas da vida
É a esperança muito elevada
Que transmuta, numa passada,
O amor em ódio, ou até em porrada!

Ira é expectativa exagerada
Sobre algo que nos foge a alçada
Pois que ao outro jamais se lapida
Pouco se muda, ou até mesmo nada.

A ira está mais para um sinal de alerta
Que pisca âmbar intermitente
E que avisa de um perigo eminente
Que fura o sinal e que causa acidente.

Escrevo porque amo

Escrevo porque amo. Não amo escrever. Escrevo porque amo.
Escrevo porque preciso. Preciso escrever porque amo.
Preciso do amor, não escrever.
Escrevo muito mais quando sou puro ódio.
Por isso escrevo muito mais do que gosto.
Quem sabe um dia não preciso mais escrever.
Ou quem sabe um dia escrevo apenas porque gosto.
Ou quem sabe transformo em puro amor todo esse ódio.

Chegou a hora

Chegou a hora
Da visão macro!
A visão do todo!

Ao contrário
Daquela mais obtusa,
Aquela mais estreita,
Que eternamente espreita.

Chegou a hora!
-Sem quebra-galho-
É pra arrebentar a boca mesmo
E encontrar o curinga
Do baralho!

Chegou a hora!
Porque a hora é essa,
de gritar ao mundo,
Porque você está certo!

Porque agora
é necessário gritar!

A primeira poesia

Esta é minha primeira poesia.
E como a primeira a gente não esquece,
Vou dormir com ela esta noite,
Para ela também não se esquecer de mim.

Eu já estou namoricando ela há uns dois anos,
Mas somente agora é que eu tive coragem de escrevê-la.

Eu quero que ela seja a primeira de muitas…
Mas ela não quer isso não.
Ela quer ser a única!
Ela quer ser exclusiva…
A única poesia.

Eu já até falei que sendo a primeira
Tem um lugar especial no meu coração,
Afinal, o lugar da primeira nenhuma outra pode tomar,
Mas não adiantou.

(a gente até já brigou por isso – de verdade)

Foi quando tentei escrever a primeira poesia
E, de tanto ciúme, ela não me deixou pensar em nada…
E assim foi, até um dia desses…

Mas hoje não! Vou pensar nela, só nela.
E hoje eu vou dormir com ela.
Hoje vou escrever a primeira poesia
E depois, pra ela não se esquecer de mim,
Acho que eu vou escrever uma poesia pra ela.
Só para registrar, entende?

Pois é, houve uma vez que amei outra poesia
Mas ela não ligava muito pra mim não.
Depois que escrevemos alguns versinhos juntos
Ela me abandonou e levou dois versos completos consigo.
Nunca mais os li.

Ouvi dizer que estavam bem.
Tentei procurá-los mas não achei.
Já devem até ter virado livro. Não sei.

Mas hoje é o dia da primeira poesia inteira
E é disso que eu tenho que falar
Até já sei como é que vou começar
É só tomar coragem e começar a contar.

Vou contar até três: um, dois, três e…

Já!